segunda-feira, agosto 27, 2007

Barcelona em 5 dias










No primeiro dia após as férias sabe bem reviver outras paragens.

Barcelona mostra-se em imagens e nos sentimentos que desperta. Pelas pessoas, pelo colosso e pelo acento italiano em todas as esquinas, Barcelona mostra-se através da objectiva de quem se perdeu entre o turbilhão humano e o apelo onírico de uma cidade que respira uma magia especial. Ficam os desvarios de Gaudí e os gestos de uma cidade entregue à vida.

Prometem-se outros relatos (à mesa de uma confeitaria em La Pau) para os próximos dias.

domingo, agosto 12, 2007

Jesca Hoop - Big Fish

Centenário do nascimento de Miguel Torga












Súplica
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga é o nome literário de Adolfo Rocha, nascido em S. Martinho de Anta a 12 de Agosto do ano de 1907.

Video Promocional Pé na Terra

A revelação que vale mesmo a pena


Cristina Castro – voz, acordeão, percussões.
Ricardo Coelho – sopros, gaita-de-foles galega e transmontana, gralha, percussões.
Hélio Ribeiro – guitarra, bandolim, voz e percussões.
Adérito Pinto – baixo e percussões.
Tiago Soares – bateria tradicional, adufe, tar, bilha, sansula, darbuka, percussões variadas.

Telf: 962 568 471
Email: contacto@penaterra.com

sexta-feira, agosto 10, 2007

fotografia de Pedro Estorninho
...espera-me a paz do campo que tanta falta me faz. Acordar ao meio-dia, depois de devorar as noites quentes no cimo da serra. Caminhar sozinha com o infinito como horizonte. Apanhar banhos de sol e chapinar na água com as meninas da aldeia e conversar sobre nada com a Beatriz, jogar football ao fim da tarde como uma maria rapaz, jogar ás escondidas como se fosse criança! Passar horas sem ouvir nada a não ser o calor e o imenso silêncio que por lá faz.
Até 4 de Setembro estarei aqui! Longe do mundo, longe do tempo, longe da vida...tão perto de mim, somente tão perto de mim, tão perto da minha alma. De tão perto que quase posso ouvir o som do meu descanso.
Boas férias!


domingo, julho 29, 2007

The Kiss - Edvard Munch

"...E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis
À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras,
o nosso dever falar."
Mário Cesariny
Ao longo da muralha

sábado, julho 14, 2007

Rabih e Ricardo


Há surpresa. Pela forma como me arrepiei ontem com aquela voz, com a entrega de Jarrod Cagwin, com as reverberações do alaúde de Rabih. Sorri mais do que seria de esperar, assustei-me e gostei. Entreguei-me e soube bem. À surpresa juntaram-se porventura os copos à hora do lanche, os cigarros deixados pelo caminho e aquela amargura de teres regressado novamente.
Voltas sempre quando a tua figura parece diluída. Eras recordações, nada mais. Ontem voltaste a ser o olhar fugidio, hoje o discurso desconexo. Tudo tão teu, por vezes tão nosso.

Foste ver o mar, eu devo ir agora apanhar o pôr-do-sol...ao rio.

quarta-feira, julho 11, 2007

Rascunho


O instantâneo assemelha-se ao rascunho. O molde eficaz, o imediatismo, a facilidade das soluções... Mas, tal como o rascunho, não passa de um projecto imediato na busca de melhores dias.

Hoje olho para mim e vejo um rascunho, um amontoado de projectos em lista de espera. As viagens que não fiz, todos aqueles que não amei, o que deveria ter sido nos dias que nunca aconteceram. As indefinições são perfeitas para quem tem certezas, trágicas para aqueles que esperam.

O sol podia ser uma boa desculpa para ser feliz, não fosse a ameaça dos dias de chuva. As estações sempre empacotaram bem o mundo. Há dias de praia, o refúgio da lareira, as folhas presas na relva, as flores que brotam da terra. Quando os dias de praia não chegam e as ameixoeiras dão fruto em Fevereiro há esperança. O desejo de escapar aos determinismos, a vontade de deixar para trás o que já não nos preenche sem que a solidão nos aprisione. Às vezes presa, outras livre demais para pensar no que já foi, a vida surge. Há dias em que apetece abraçá-la, outros em que só dois braços fariam a diferença.

Vou para casa com as mesmas certezas com que de lá sai esta manhã. Que a vida está cheia de paragens até ao destino final.

terça-feira, junho 19, 2007

Em todos os tempos as mesmas vontades

Não consigo dominar
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
Para não chegar tarde
Não sei de que é que eu fujo
Será desta solidão
Mas porque é que eu recuso
Quem quer dar-me a mão
Vou continuar a procurar a quem eu me quero dar
Porque até aqui eu só

Quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi

Esta insatisfação
Não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder
Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P'ra outro lugar
Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar
Porque até aqui eu só

Estou bem
Aonde não estou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou

Estou além
António Variações

segunda-feira, junho 04, 2007

Urgências



Hoje não.
Deixei de sentir...
Dói só...só dor e a vontade de chorar.

Depois de tantos dias a desejar o sol hoje sinto-me crua, abandonada, sozinha.
Quero voltar a sonhar, urgentemente!

"Ho sognato che mi dicevi che eri triste", disse-me há pouco alguém a quilómetros de distância. É bom saber que sonhaste comigo, que me sentiste para lá da terra e do mar que nos separam. Soube bem!

Grazie Erasmo

Quando o que está mais perto não nos preenche, é bom saber que há gente lá fora. É o que me alimenta.

sábado, junho 02, 2007

Um dia apaixonei-me!Tenho a certeza disso...quantas vezes tenho 13 anos e quero ir buscar esse amor ao fundo da caixa dos chapéus...
Há uns meses soube que casou, choveu dentro do meu peito uma semana inteira. Eu tinha um guarda-chuva cheio de florzinhas, com que o abrigava quando chovia, naqueles sábados em que viajávamos juntos. Falávamos de coisas que já não lembro, mas sei que ria, ria muito.Hoje não rio, nem ando de guarda-chuva; nunca mais gostei de me proteger debaixo daqueles estúpidos aros metálicos. A verdade é que nunca mais fizeram o céu com florzinhas. Também nunca mais gostei de chuva.
Há no ser Humano um terrível sentido de adaptabilidade…se não fosse adaptável queria abrigar-te debaixo de um céu ás flores e dizer que os sábados sempre foram os mesmos e que à distância dos meus treze anos me tornei uma pessoa diferente; e quanto mais me distanciava do que era, percebi que perdia a capacidade para amar.
A adolescência é estranha…raramente se recupera dela, quando o ser “Eu” é um estado patológico desde a nascença.
Sim…eu um dia apaixonei-me!

Fotografia de Rosalina Afonso

quarta-feira, maio 23, 2007

19.55


Começou a chover. Passa das sete e meia num dia morno. Caloroso quando me abraçaste com o teu gesto dúbio, cheio de incertezas.

Muitos são os dias em que penso em mim, em jeito de exercício narcisístico. Penso em mim, nos 24 anos que já passaram, nos outros a chegar, mas foi semana passada, no pendular entre Lisboa e Porto, que percebi que a emoção que me falta advém daquilo que nunca projectei. Entre Fátima e Aveiro compreendi que quero a vida sem regras, sem horários, se possível sem os outros. Sinto-me bem sentada sozinha num comboio, o ideal era um destino desconhecido. O ideal era o deserto, o rasto de desolação e nada mais. Queria ver o mundo do mesmo modo que continuo a gostar de te ver. Já te desejei assim, como agora grito pelo mundo. Ferozmente.

terça-feira, maio 15, 2007

Porque vale a pena relembrar

"Quero fazer o elogio do amor puro.

Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.
O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi casais tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia (...).

Já ninguém se apaixona?
Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra.
(...) Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida.
A vida que se lixe.

Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber.(...) Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra.
A vida dura a vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

ELOGIO AO AMOR - de Miguel Esteves Cardoso

segunda-feira, maio 14, 2007

Doze pedaços de lua somente o trabalho do actor sobre o actor.
Lembrando o poema de Herberto Hélder o actor põe e tira os cornos de veado. Ninguém ama tão corporalmente como ama o actor.
Uma peça sobre amor. Amor em toda a sua latitude e longitude.
Um trabalho a descoberto onde a rede são as mãos, os braços, as pernas, a cara, a voz , e tudo o que de mais serve a arte suprema do Teatro.
Se saírem de lá a sorrir, simplesmente a sorrir, sentimos que a missão está cumprida.

Encenação de PedroEstorninho com o S.O.T.A.O.

quinta-feira, maio 10, 2007

segunda-feira, maio 07, 2007

Reflexos


Pelos dias de sol, pelas pessoas que me ocupam o coração e pela necessidade de viver.

Teatradas de regresso!

«Boca de Fogo», de Manuel Poppe, com encenação de Júnior Sampaio, é um espectáculo de teatro centrado nas inquietações do indivíduo num mundo globalizado. Acção de formação resultante do Curso Intensivo à Prática Teatral organizado pela Seiva Trupe e pelo ENTREtanto Teatro, a peça estará em cena entre 5 de Maio e 3 de Junho. Este espectáculo põe a essência da vida lado a lado com a "barbárie humana": "Sendo o corpo o objecto de comunicação, «Boca de Fogo» narra através de sons, ruídos, rumores… palavras, palavras-soltas, pequenas frases, as inquietações do indivíduo no mundo da globalidade. Uma viagem rápida e alucinante pela respiração, pelo amor, pelo sexo, pela família, pela arte, pela violência, pelo materialismo… numa passagem/ reciclagem pela experimentação da vida". Apresentando-se como "um jogo de comunicação com o público, uma inquirição à existência, um convite à poesia dos sentidos", tem no elenco Ana Nabais, Ângelo Silva, Bruno Leite, Carlos Gonçalves, Carlos Nabais, Cláudia Sousa, Daniela Gonçalves, Emanuel Sousa, Hugo Silva, Ivone Oliveira, Jaime Pacheco, Jorge Aguiar, Jorge Fonseca, Mafalda Gomes, Marco Ferraz, Mariana Santos, Mário Fontoura, Nanci Sousa, Patrícia Aguiar, Rita Vieira, Rui Gomes, Sara Fernandes, Susana Vieira e Tânia Reis (alunos do curso de teatro).

Estas palavras servem de convite. Gostava de contar com a vossa presença do lado de lá.

Aqui ficam os dias em que estamos em cena. Quanto aos bilhetes para o Teatro do Campo Alegre podem ligar para lá a marcar e dizer que conhecem uma pessoa do elenco que fica por três euros. Para o Centro Cultural de Campo, em Valongo, basta falar comigo ou então comprar directamente no local, pelos mesmos três euros.


Teatro do Campo Alegre - 10 de Maio, 22h
Teatro do Campo Alegre - 11 de Maio, 22h
Teatro do Campo Alegre - 12 de Maio, 22h
Teatro do Campo Alegre - 13 de Maio, 16h
Teatro do Campo Alegre - 15 de Maio, 22h
Teatro do Campo Alegre - 16 de Maio, 22h
Teatro do Campo Alegre - 17 de Maio, 22h
Teatro do Campo Alegre - 18 de Maio, 22h
Teatro do Campo Alegre - 19 de Maio, 22h
Teatro do Campo Alegre - 20 de Maio, 16h
Centro Cultural de Campo, Valongo - 28 de Maio, 21h30
Centro Cultural de Campo, Valongo - 29 de Maio, 21h30
Centro Cultural de Campo, Valongo - 30 de Maio, 21h30
Centro Cultural de Campo, Valongo - 31 de Maio, 21h30
Centro Cultural de Campo, Valongo - 1 de Junho, 21h30
Centro Cultural de Campo, Valongo - 2 de Junho, 21h30
Centro Cultural de Campo, Valongo - 3 de Junho, 21h30

quarta-feira, maio 02, 2007
















"Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos"
Eugénio de Andrade

As férias na aldeia trazem sempre um sabor amargo no coração; fazem acreditar que o mundo é como aquele pedaço de céu, plantado por mãos humildes. Como se por momentos o mundo fosse um lugar amável para se poder viver; sem medos, sem sombra, sem quedas. Apenas o silêncio!Somente o silêncio, tão cheio de amor de todas as gentes.

quinta-feira, abril 19, 2007

segunda-feira, abril 16, 2007


Muito boa...ideal para o 8 de junho de 2007!!
hhihihi
postado por anamarta fortuna

quinta-feira, abril 12, 2007

Quando eu nasci a minha irmã tinha dez anos. Hoje a minha mãe contou que a primeira vez que a mana Margarida ouviu o meu coração bateu deu pulos de alegria e gritava: A minha maninha, a minha maninha!
Como era bom poder ouvir-te gritar outra vez, mesmo agora, fora de um meio seguro
.
Fotografia de Raimundo Alexandre Fortuna
Postado por Ana Marta Fortuna





Michael Ging

O segredo da imagem interior

Ana Marta Fortuna


segunda-feira, abril 02, 2007

A importância das palavras face a um conteúdo

Era importante dizer alguma coisa.
Tenho preguiça.
Tenho um conteúdo inoperante.

Um cansaço inoportuno
Um teatro sem assunto.

Que se foda...o actor é apenas atravessado pelas palavras.

o homem trespassado pelas palavras.

e nada chega para encher o frio de quatro paredes.


Ana Marta Fortuna

    terça-feira, março 20, 2007

    Tardes de Coimbra











    Em jeito de recordação aqui ficam as imagens de uma breve passagem por Coimbra. Longe da Sé Velha ou da fachada Faculdade de Direito sobrevivem as imagens de uma artéria central movida pela gente. Por quem passa, pelos que olham de frente, pelos outros que auscultam de relance e pelos dois com quem partilhei o fino.

    terça-feira, março 13, 2007
























    Dorme meu menino a estrela d'alva
    Já a procurei e não a vi
    Se ela nao vier de madrugada
    Outra que eu souber será pra ti.

    Outra que eu souber na noite escura
    Sobre o teu sorriso de encantar
    Ouvirás cantando nas alturas
    Trovas e cantigas de embalar.

    Trovas e cantigas muito belas
    Afina a garganta meu cantor
    Quando a luz se apaga nas janelas
    Perde a estrela d'alva o seu fulgor.

    Perde a estrela d'alva pequenina
    Se outra não vier para a render
    Dorme quinda à noite é uma menina
    Deixa-a vir também adormecer.

    Zeca Afonso
    postado por Ana Marta Fortuna






    segunda-feira, março 12, 2007

    Estrela da Tarde




    Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
    Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
    Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
    Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

    Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
    E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
    Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
    Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
    Meu amor, meu amor
    Minha estrela da tarde
    Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
    Meu amor, meu amor
    Eu não tenho a certeza
    e tu és a alegria ou se és a tristeza
    Meu amor, meu amor
    Eu não tenho a certeza
    Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
    Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
    Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
    E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
    Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
    Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
    Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
    E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

    Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
    É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
    Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
    Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
    Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!
    José Carlos Ary dos Santos
    Fotografia de Morfosis
    Postado por Ana Marta Fortuna

    domingo, março 11, 2007

    Quando era criança a primavera chegava assim...no cheiro!
    Sentia o cheiro das flores logo pela manhã, a pele parecia mentol e o sol demorava-se pelas tardes. Escutavamos o cantar dos grilos a entrar pela janela do quarto, o vento morno a cobrir as brincadeiras e o céu azul a estender-se pelo horizonte, quando nos deitávamos com as costas na relva.
    As flores eram as primeiras a ser notadas...muitas...até se perder de vista. Depois chegavam as joaninhas, com as suas capas vermelhas de bolinhas negras a percorrer os dedos para depois fugir, voando sem destino.
    Realizavamos autênticas maratonas de bicicleta até ao rio, esquecendo sempre que o caminho de volta tinha que ser feito.
    A mãe deixava-me andar descalça na relva, na terra, nas pedras quentes da eira...molhavamos os pés quando ela regava o jardim e corríamos atrás das borboletas que nasciam de um dia para o outro, tal como a Primavera.

    Na sexta-feira ela chegou assim...não havia a eira, a mãe, os pés molhados, as costas deitadas na relva, mas ela chegou assim! Eu não sou criança mas a Primavera chegou.
    Acordei para ir trabalhar, ouvi uma chefe recém licenciada na sua total ignorância, pequenina em sensatez proferir aguçadamente palavras de descontentamento, vi um homem chorar e uma colega a manifestar os seus dotes de comunicação. Vi um mundo que não cabia na minha infância e senti um coração pequenino na primavera que chegava.
    Mas...
    Veio a tarde...o rio outra vez...amava na Primavera. Talvez a primeira vez!
    Veio o sábado e a praia...a alegria de partilhar a Primavera e de molhar os pés na areia e fazer palhaçadas.
    Veio o Domingo...a mãe...o pai...as mãos da mãe...o amor da minha mãe...o braço forte do meu pai a segurar-me as quedas (já não tão forte agora)...as flores sem fim, a relva nas costas e o céu azul como única imagem.
    Amanhã, independentemente de tudo, o "sol estará em cada sílaba"...E EU VOU AMAR...simplesmente porque mereço! Porque não sei como virá o futuro e o presente é o único tempo que tenho para viver e para amar, sem ter que me sentir culpada por isso!


    Ana Marta Fortuna
    Fotografia de Petrova

    domingo, março 04, 2007


    Uma viajem colorida
    depois de tanto tempo sem férias.
    A ideia de um futuro diferente
    a força de uma vontade em querer marcar a diferença.
    Um amor que não se concretiza.
    Um outro que apenas se idealiza.
    Livros para ler, desenhos para colorir, mapas para se percorrer, gentes por conhecer.
    Há fins que trazem a profunda certeza de que o início deve ser diferente.
    Um caminho novo se impõe...
    Uma procura! A verdadeira esperança!
    A vontade...por agora apenas ela e tudo mais vem por acréscimo.


    Ana Marta Fortuna

    fotografia de malkievicz

    quarta-feira, fevereiro 28, 2007

    Está-se bem


    Pelos bons momentos e pela conquista.

    terça-feira, fevereiro 27, 2007

    Pelas marés


    Hoje abri novamente a janela onde sempre me debruço
    e escrevi: aqui está a imobilidade aquática do meu país,
    o oceânico abismo com cheiro a cidades por sonhar.
    invade-me a vontade de permanecer aqui, para sempre,
    à janela, ou partir com as marés e jamais voltar...

    releio o que escrevi há doze anos, neste mesmo lugar:
    as canetas secaram, os lápis ficaram esquecidos não sei
    onde. as borrachas já não apagam a melancolia das palavras.
    a escrita que inventámos evadiu-se do corpo.
    o vazio devora-nos. onde estivemos este tempo todo?
    voltaremos a encontrar e a tocar nossos corpos?




    Fotografia: Paulo Cesar

    Texto: Al Berto, O Medo



    sábado, fevereiro 24, 2007

    desamparada queda

    Virá o dia
    em que também nós
    da torre de vidro
    para o vazio saltaremos.
    Em desamparada queda
    estamos já.
    Entre o salto
    e a derradeira palavra,
    lembrar-nos-emos
    de uma nuvem ou de um madrigal.
    De que nos serve
    o brilho ínsito
    em rápidos vidros durante a queda?

    Turvamos águas.
    Nada mais.

    Fotogragia: Artur K.
    Texto: Luís Quintais (angst)
    Ana Marta Fortuna

    terça-feira, fevereiro 13, 2007

    Quando a procissão passa...

    Rever a procissão fez-me recuar no tempo. As meninas das fitinhas são outras, há sorrisos abertos, há quem se esconda dos olhares, há quem se mostre à multidão. Hoje elas, ontem eu.
    É estranho como um domingo de Fevereiro, aparentemente desinteressante, incómodo e chuvoso, me trouxe de volta à infância. Assim, sem contar rever os brilhos do vestido da Primeira Comunhão, os cachos que me pendiam do cabelo, os passos de bailado com que passeava pela procissão, reencontrei. Não a mim. Só aquele desejo de viver, de sorrir, de seguir com a multidão, de ouvir a explosão dos foguetes. De sentir.
    A procissão passou, a chuva fica e o incómodo também. O deslumbre seguiu com a fanfarra. Ficam as certezas que me movem. Hoje mais erradas que sempre. Fica a perda de tudo o que poderia ter sido, fica o medo de que nunca venha a ser. Fica a angústia e o amargo na boca pelas verdades que passaram e pelas mentiras que foram permanecendo.

    O encanto dos olhos da Jéssica, que me sorriu, fez-me lembrar o brilho dos dias em que os sonhos eram mais que promessas vãs. Hoje muitos dos sonhos partiram, ficaram só certezas abruptas. As mesmas certezas que minam todo o percurso para o que deveria ser. Fica o que é, fica a chuva, o frio. Lá longe, só o foguetório. Há gente que ama, sorri, desespera, sofre. No domingo não fui mais que aquela que ficou para trás, bem longe da fanfarra e dos foguetes. Só.

    segunda-feira, fevereiro 12, 2007

    Passam tão rápido as coisas lá fora.
    Tão depressa que as não posso sentir.
    Passam tão rápido as coisas lá fora. Tão rápido.
    Chove há mais de um ano no meu colo de marfim.
    Há mais de um ano que estou abrigada da chuva menos o meu colo,
    que começa a apodrecer
    porque chove à mais de um ano no meu colo de marfim.
    Aperto contra o meu colo um mar
    que não vejo desde que nasci.
    Esse mar que tem um ano, que aperto contra o colo de marfim.
    A verdade é que tenho pouco mais do que um ano de vida ou de mar.
    Desde esse tempo
    cravei fundo as unhas
    para apertar as coisas contra o meu colo de marfim
    que tenho há pouco mais do que um ano.
    Choveu a vida inteira
    dentro de mim.
    Chove todos os dias
    dentro de mim
    um vida incompleta.
    Não sei se é água do mar
    ou se a água das lágrimas do colo de marfim.
    Dói porque é tão pequenino o colo,
    nunca conheceu nada a não ser chuva e a força do mar apertado contra ele.
    Tão pequenino e já tão podre.
    Tão podre e já tão esquecido.
    Se as coisas não corressem tão rápido
    talvez ainda hoje fosse ontem
    talvez o ontem fosse pouco mais de um ano para trás
    e parasse de chover
    para que o meu colo de marfim
    acabado de nascer
    pudesse arranjar um sitio para se abrigar da chuva.

    Ana Marta Fortuna
    Fotografia de Jeff Hahn

    sexta-feira, fevereiro 09, 2007

    Um beijinho de boa noite

    Curiosidades

    A propósito do referendo, fica aqui mais uma curiosidade sobre a igreja católica, que muito me apraz divulgar...

    17/3/1487 – O Rei D. João II, perdoou e pôs em liberdade, Fernando da Costa, Prior de Trancoso , por ter tido relações sexuais com 54 concubinas, das quais teve 275 filhos (200 filhas e 75 filhos): de 29 afilhadas teve 97 filhas e 37 filhos; de 9 comadres teve 38 filhas e 18 filhos, de 7 amas teve 29 filhas e 5 filhos, de 2 escravas teve 21 filhas e 7 filhos; de uma tia teve 3 filhos; de 5 irmãs teve 15 filhas e 3 filhos; e da própria mãe teve 2 filhos. A sentença está arquivada na «Torre do Tombo» (ano de 1487, maço n.º 7, armário n.º 5).


    Dia 11 de Fevereiro vota SIM
    Ana Marta Fortuna

    quarta-feira, fevereiro 07, 2007

    Flash Mob pelo Sim

    http://www.blocomotiva.net/
    O contraste evidente entre manifestações serenas e alegações desesperadas como as de Júlio Castro Caldas no programa Prós e contras.


    Dia 11 de Fevereiro vota SIM


    Ana Marta Fortuna

    sexta-feira, fevereiro 02, 2007

    E o diabo fala espanhol...

    Lúcifer, Belzebu, Asmodeu, Azazel, Cadreel, Mastema, Mefistófeles, Satã ou Sier são meras designações para aquele ser enigmático....o Diabo.

    Se, nestes casos, o 666 é o número do Demo então o mistério foi hoje finalmente desvendado...o diabo fala espanhol...chama-se José Ramón Casteló, trabalha no ramo das lentes de contacto e nasceu a 6/6/66....às 6 horas!!!!!!!!!!!!

    Para não restarem quaisqueres dúvidas aqui fica outro dado de interesse...é responsável ibérico de uma empresa de lentes de contacto que causou um grave problema ocular a mais de 100 pessoas em todo o mundo, sendo que algumas ficaram mesmo cegas. A empresa chama-se Bausch& Lomb, o que deve dizer muito pouco ao simples mortal...mas parece dizer muito ao DEMO!

    Aqui

    quarta-feira, janeiro 24, 2007

    “É quando um chão de lama
    se instala e nos comanda
    que a injustiça avança
    e a raiva se proclama
    é quando D.Quixote
    o peito acende e brama
    irreverente a espada
    imorredoura a chama
    é quando os homens longe
    repousam distraídos
    que a cobra traiçoeira
    lhes tapará os ouvidos
    e a boca e o saber
    e a vida tutelar
    e o mais que for preciso
    para não deixar pensar


    mas sopra a barca o vento
    doutra razão de ser
    e rasga o mar e alcança
    e rompe e quer viver
    da ilha para que rumo
    não há qualquer registo
    mas diz que viver lá
    é muito mais que isto

    que façam mil favores
    em crónicas variadas
    meus olhos e distâncias
    nunca serão compradas
    e comam futebol
    e mostrai-vos ao mundo
    e engulam três novelas
    com talnão me deslumbro
    ocupados de dia
    com a bicha do guichet
    entretidos à noite
    com a santa mãe TV
    matai-vos por um carro
    ou para ter lantejoulas
    que aqui na minha terra
    cavalgo entre papoilas

    mas sopra a barca o vento
    doutra razão de ser
    e rasga o mar e alcança
    e rompe e quer viver
    da ilha para que rumo
    não há qualquer registo
    mas diz que viver lá
    é muito mais que isto…”

    Música e letra de Pedro Barroso
    fotografia de Kéa

    ana marta fortuna

    segunda-feira, janeiro 22, 2007

    O mundo queria ser eu…
    Eu queria que o mundo fosse sempre esta chamada telefónica a sorrir dentro dos meus ouvidos, dos meus olhos da minha alma.
    Amanhã vou comer com as mãos abertas e a barriga cheia de fome como quem não sabe o sabor das coisas a arrepiar os cabelos. Vou acordar o dia…estender os meus braços na varanda e aquecer o meu corpo no chão banhado pelo sol.
    Amanhã, mesmo sendo Inverno, vai ser um dia de Verão e eu vou estar estendida na praia o dia inteiro a ouvir as ondas rebentar nos meus pés.
    Amanhã se me apetecer morrer, desejarei que seja sol todo o dia para que a minha morte seja sempre Verão, mesmo durante o Inverno…
    Verão…mesmo no Inverno.

    Ana Marta Fortuna
    Fotografia de moumine

    terça-feira, janeiro 16, 2007

    Tom Waits - Take Me Home

    À Maria Ermelinda
    Ao Cunha


    A manhã começou crua. Com sabor a morte e a perda. A morte poderia passar incólume mas a sensação de vida interrompida acompanhou-me nos vinte minutos que separam Figueira de Mato do Campo 24 de Agosto. Passa-se a ponte mas o frio permanece. Começar o dia com o peso da liberdade que se perdeu não é fácil.

    Ela morreu de cancro de mama. Ele está preso. Ela era a mulher forte que morou, durante anos, na casa ao lado. Ele, o mecânico da rua que me enchia os pneus da bicicleta. A morte era um desfecho esperado, as grades da prisão não. O peso no estômago é pela liberdade que se perde. Há dois filhos que deixaram de abraçar a mãe, há uma filha que esquece o calor do abraço forte do pai. Há uma rua que ficou mais triste, há pessoas votadas ao abandono.

    Há quem vá chorar durante todo o dia de hoje, há quem deixará de abraçar a filha e levá-la de manhã à escola. Perdeu-se uma mãe, interrompe-se um pai.
    Eu, e a irrelevância da minha dor, ficam com aqueles que perdem. Pelos dois filhos que perderam a mãe, por aquele que perdeu a liberdade. É difícil acreditar em postulados como 'nada se perde, tudo se transforma'. A brutalidade da dor não se reconforta com as certezas da ciência.

    quinta-feira, janeiro 11, 2007

    No telhado...




















    Fotografia de Zabaa

    Quando a única coisa que nos arrebata é o homem que subiu ao telhado para fumar um cigarro fica-se com a sensação que o amor é uma invenção de quem nunca arriscou olhar lá de cima. É o cenário perfeito para observar os passos dos rostos anónimos e, quem sabe, se não será a distância ideal para que não seja mais possível distinguir-te por entre a multidão.

    domingo, janeiro 07, 2007

    Para o Manuel...

    Todos estamos determinados pelo facto de nascermos humanos e, consequentemente, pela tarefa interminável de ter de escolher constantemente. Não devemos confiar em alguém que nos salve, mas conhecer bem o facto de que as escolhas errradas nos tornam incapazes de nos salvarmos.
    ERICH FROMM, O coração do homem
    fotografia de Petrova

    Da janela chegava uma chuva miudinha e um cinzento frio que mantinha quente a memória de que era Domingo. Só os domingos trazem notícias assim, só os amigos trazem esperança igual, junto com uma já saudade por uma distância futura, tão próxima.
    Do outro lado vinha uma frase: “Tive uma proposta, Ana…Segunda-feira tenho que responder a ela…implica sobreviver em Lisboa”
    Subitamente as coisas crescem e o mundo torna-se enorme, engolindo tudo à nossa volta. Tudo parece insignificante perante a imagem da distância física…O Manuel longe é uma novidade…para todos.
    Mas Lisboa será só 300 km e o Manuel é tão grande que lhe basta suspirar para que esses quilómetros sejam desfeitos com as duas mãos num colectivo de saudades…”Inclino-me para ir, anita”.
    Vamos todos contigo, sempre, pequeninos dentro do bolso do teu casaco, para qualquer lado…vamos sempre!
    Quando cresço percebo com facilidade que a amizade é o único amor honesto. Sinto remorsos pelas conversas que não tivemos, pelos jantares que não foram combinados, por uma estranheza nos abraços…queria ter conversado mais, abraçado mais, chorado mais…
    A ideia da ausência traz-me memórias do que não se fez. A escolha meu terno amigo é mais do que acertada…a viagem é rápida, o carinho esse demora-se pelo tempo, dança calmo pelos dias…Ficaremos bem se tu também ficares…E agora por ti, vamos dançar, sorrir muito e cantar muito alto, como fazem as crianças, para que os anjos as oiçam…Para ti…para o slint e para a andorinha, pais e irmã asas para protegerem o vosso sono e darem esperança aos vossos sonhos.

    Ana Marta Fortuna


    "São tão difíceis os encontros, mais difícil a separação.
    O vento leste perdeu a força, murcharam todas as flores.
    Na Primavera , os bichos-da-seda tecem, até morrer, os fios do coração;
    As lágrimas da vela não secam até o pavio ser cinza.
    De manhã vendo-se ao espelho: ficará grisalho o cabelo?
    Repetindo um poema durante a noite, sentirá o arrepio do luar?
    Não é longe, daqui até ao Rio Escuro
    Pássaro Azul, depressa, vigia-me a estrada."
    Li Shang-Yin
    fotografia de Gonçalo Franco
    dimensaooculta

    sábado, dezembro 30, 2006

    "É difícil dizer se o mundo em que vivemos é uma realidade ou um sonho"
    Iron-3
    dimensaooculta

    terça-feira, dezembro 26, 2006

    Depois de um Natal estupidamente consumista, sabe bem o calor do sol na cara, que é honesto e gratuito.
    fotografia de Pedro Estorninho

    dimensaooculta

    terça-feira, dezembro 19, 2006

    Ainda há dias assim...na Boavista


    Demências à italiana

    Aqui ficam as divagações, em tom romano, do nostro discepolo italiano...sempre Erasmo. E a tradução que se conseguiu arranjar de uma italiana já em avançado estado de demência.


    Baci Bello**



    Super Heróis (De senectute )

    As crianças esforçam-se (ou ficam frustradas) por causa dos constantes limites

    Por exemplo eles não alcançam a manivela das portas, só quando são maiores.

    Das primeiras frustrações (e das primeiras aspirações) surge o carácter.

    Depois surge o primeiro ditado: há aqueles que seguram a cadeira, outros que, simplesmente, se aproximam do próximo triciclo e sobem para o assento de forma pouco convencional; há ainda quem ainda se lance para o infinito. A parte do fascínio é só deles.

    Os primeiros são aqueles que viverão pior: os racionais, os lógicos, os inteligentes em género. Os segundos beneficiarão do ditame romano: “Abençoado sejas…”1.

    Os últimos terão o amigo invisível, quem sabe o próprio patrono da invisibilidade. Rejeitarão as imposições de ocasião. Provavelmente, também serão muito religiosos, de uma qualquer crença, sempre na esperança de seguir as ordens superiores, em mitos, em uma qualquer intervenção externa, numa delegação. Sendo assim, viverão felizes, pelo menos até ao dia em que o amigo invisível chegar a casa doente. O Super-homem caiu em desgraça, desligou-se o telemóvel e o autocarro vai cheio.

    Terminam ali, mas felizes.

    Como os animais que não têm medo da morte, porque simplesmente ignoram a sua existência.


    E os outros?

    Os outros têm que esperar pacientemente pela demência.


    Os dementes são muito mais fortes e invencíveis que os super heróis.

    Vivem no seu planeta e os outros bem se podem foder. As suas decisões são inalteráveis, pelo menos até o deixarem de ser. Depois voltam a deliberar sobre o mesmo assunto, muito provavelmente já com ideias diferentes das anteriores.

    Daquele momento partem, calmamente, em defesa das suas convicções, até que um dia voltam a esquecê-las.


    Fazem as mesmas coisas vezes sem conta, para não passarem por dementes.

    Se alguém se envolve nalguma coisa, o ciclo prossegue a sua marcha; se ele dá sinais de impaciência discutem durante toda a vida; mas, dali a pouco, voltam a esquecer tudo. Volta tudo ao que era antes.


    Eles são muito mais fortes que o Super-homem porque esquecem.

    Eles esquecem os princípios fundamentais da convivência física e social.

    Esquecem e ignoram o ataque do coração que os arrancou à noite com dores brutas, e então encontra-se uma linha que balança lá fora para limpar as janelas quando alguém chegar.

    Então nada os pára, nada os preocupa, nada os faz desistir.

    Até ao estreitamento arterial seguinte, pelo menos


    E como a esperança média de vida se prolonga, todos, normais ou não, lógicos ou passionais, temos o direito de viver uma década imersos na demência da superioridade.

    Desta forma, a vida vai forçar-nos àquele entorpecimento da inteligência, do qual sempre fugimos. E podemos, finalmente, fingir (nos poucos momentos de lucidez, que estaremos convencidos serem permenentes) de não entender e rir das coisas que, durante toda a vida, percebemos e sofremos.

    E este é um desejo secular, tal como o paraíso na terra antes do fertilizante.

    1. Para os leitores com um indicativo diferente de 06 (Roma), a oração é:

    "Abençoado sejas filho da putade um caralho”


    Supereroi (De senectute)

    I bambini s'ingegnano (o si frustrano) per i limiti che hanno.


    Ad esempio non arrivano alla maniglia delle porte, mentre i grandi sì.

    Dalle prime frustrazioni (e dalle prime aspirazioni, dunque) si va formando il carattere.


    Lì c'è una la prima diga della vita: quelli che prendono la sedia o semplicemente s'avvicinano col triciclo, ci montano sopra in maniera "non convenzionale" e aprono; altri fantasticano sulla capacità di librarsi in aria volando per raggiungerla. Ma a parte fantasticare la guardano.


    I primi sono le persone che vivranno peggio, i razionali, i logici, gli intelligenti in genere. I secondi saranno i beneficiari del detto romanesco "Beato te..."1.


    Questi ultimi avranno l'amico invisibile, magari il dono dell'invisibilità essi stessi, respingeranno le pallottole col petto e così via. Probabilmente saranno anche molto religiosi, di una religione qualunque s'intende, sempre in virtù del credere ai supereroi, ai miti, all'intervento esterno, al delegare. Come che sia, vivranno felici e contenti, almeno fino al giorno in cui l'amico invisibile è a casa febbricitante, Superman ha litigato ed ha spento il cellulare ed un TIR li prende pieni pieni.


    E finiscono lì, ma felici.

    Come gli animali che non hanno paura della morte, perché semplicemente ne ignorano l'esistenza.


    E gli altri?

    Agli altri non resta che aspettare pazientemente il sopraggiungere del rincoglionimento.

    I rincoglioniti sono molto più forti ed invincibili dei supereroi.

    Vivono sul loro pianeta, e gli altri si fottessero. Sono inamovibili nelle loro decisioni, almeno finché non le dimenticano. Poi rideliberano sullo stesso argomento, magari con direzione e segno opposti alla volta precedente.

    Da quel momento partono (con calma) come missili nella difesa a spada tratta della novella convinzione, fino alla prossima amnesia e così via.


    Rifanno le stesse cose milioni di volte, per evitare di dimenticarsene e dare quindi l'impressione di essere rincoglioniti. Se nel rifare una cosa c'è coinvolto qualcuno, gli scassano il cazzo ogni volta che riparte il ciclo; se costui da segni d'insofferenza litigano per la vita (evvai!); ma poco dopo lo dimenticano e tutto da capo.


    Sono molto più forti di Superman perché dimenticano.

    Dimenticano i principi fondamentali della convivenza civile e della fisica.

    Dimenticano e quindi ignorano di averti fatto prendere un colpo chiamandoti nella notte col dolore al petto e al braccio, e quindi li trovi appesi ad un filo che dondolano fuori dalle finestre per pulire i vetri quando accorri.

    Quindi nulla li ferma, nulla li preoccupa, nulla li fa desistere.

    Fino al restringimento arterioso successivo almeno.


    E siccome l'età media s'allunga, tutti, normodotati e non, logici e passionali avremo prima o poi il diritto di vivere una decina d'anni di completo rincoglionimento da supereroi.


    In questo modo la vita ci renderà obbligato quel torpore dell'intelligenza da cui siamo sempre fuggiti e potremo finalmente fingere (nei pochi momenti di lucidità, che comunque saremo convinti essere permanenti) di non capire e ridere o sorridere delle cose che nel resto della vita abbiamo capito e sofferto.


    E questo è un augurio, laico, come un paradiso terrestre prima di diventare concime.


    1 Per i lettori con prefisso diverso da 06, la frase in argomento è:

    "Eh, beato te che nun capisci'n cazzo..."





    sexta-feira, dezembro 15, 2006

    Fiona Apple (Never is a promise)


    Lembro como o ontem parecia tão longe...

    dimensaooculta

    quinta-feira, dezembro 14, 2006


    Estão todos convidados...O Clube Fenianos Portuenses situa-se do lado direito(para quem desce a Avenida da Liberdade) da câmara do Porto.

    dimensaooculta

    terça-feira, dezembro 12, 2006

    Pois que os campos sejam a paisagem da minha única janela
    Que as flores sejam as minhas únicas mãos
    Pois que o fim de tarde seja o meu único tempo para viver
    e o meu espaço sozinho ocupe mais do que qualquer imagem.
    Que o peso da minha alma, não seja mais do que um suspiro.
    Pois que não anseio mais...nem amor, nem tempo, nem futuro a não ser
    este tempo, este presente, esta janela, estas mãos...numa única verdade
    sempre sem fim.

    dimensaooculta
    fotografia de Mark and Fabia

    segunda-feira, dezembro 11, 2006

    Mazzy Star - fade into you (rare live acoustic)


    "E, daí em diante, Oriana foi abandonando um por um todos os homens, animais e plantas que viviam na floresta. Um dia também abandonou o poeta. Foi porque uma tarde o peixe lhe disse:
    - Vista à luz do Sol és linda, mas de noite, vista à luz de uma chama, deves ser ainda mais bonita..."
    A fada Oriana
    Sophia de Mello Breyner Andresen

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    Definições


    O amor é como uma janela transparente, fechada por dentro, cheia de coisas que não se querem mostrar.

    dimensaooculta
    fotografia de Ambrosia

    sexta-feira, dezembro 01, 2006

    "...este mar não tem cura este céu não tem ar
    nós parámos o vento não sabemos nadar
    e morremos morremos
    devagar devagar."
    José Carlos Ary dos Santos
    fotografia de Rosalina Afonso

    dimensaooculta