segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Passam tão rápido as coisas lá fora.
Tão depressa que as não posso sentir.
Passam tão rápido as coisas lá fora. Tão rápido.
Chove há mais de um ano no meu colo de marfim.
Há mais de um ano que estou abrigada da chuva menos o meu colo,
que começa a apodrecer
porque chove à mais de um ano no meu colo de marfim.
Aperto contra o meu colo um mar
que não vejo desde que nasci.
Esse mar que tem um ano, que aperto contra o colo de marfim.
A verdade é que tenho pouco mais do que um ano de vida ou de mar.
Desde esse tempo
cravei fundo as unhas
para apertar as coisas contra o meu colo de marfim
que tenho há pouco mais do que um ano.
Choveu a vida inteira
dentro de mim.
Chove todos os dias
dentro de mim
um vida incompleta.
Não sei se é água do mar
ou se a água das lágrimas do colo de marfim.
Dói porque é tão pequenino o colo,
nunca conheceu nada a não ser chuva e a força do mar apertado contra ele.
Tão pequenino e já tão podre.
Tão podre e já tão esquecido.
Se as coisas não corressem tão rápido
talvez ainda hoje fosse ontem
talvez o ontem fosse pouco mais de um ano para trás
e parasse de chover
para que o meu colo de marfim
acabado de nascer
pudesse arranjar um sitio para se abrigar da chuva.

Ana Marta Fortuna
Fotografia de Jeff Hahn

2 comentários:

alúvio disse...

sol caído, ilha de fogo, ascende a chuva, dorme a sede

Anónimo disse...

dorme tão depressa quanto o meu adormecimento pela vida.