Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!segunda-feira, janeiro 21, 2008
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!terça-feira, janeiro 08, 2008
domingo, janeiro 06, 2008
Em toda a cidade que dorme e respira, eu luto com a dispneia e escrevo. Em toda a cidade que repousa e se esquece, na Avenida dos Combatentes eu debato-me contra a morte e escrevo diante da minha pequena tribo que dorme. A tribo dorme: a Lina mostra um punho fechado (ideias avançadas terá a mocinha?); o rapaz está de costas e quase destapado (parece um Cupido cansado; na larga queixada, porém, uma expressão terrena, máscula - a cara camponesa e rude do avô Matias); o bebé ressona ou balbucia qualquer uma esperança que só ele entende. Ela, a Irene, a minha pequena deusa de tranças loiras, encosta-se a mim e calada cálida repousa cansada. Sou um deus grego ! Fauno serôdio, Pan sem flauta, Orfeu decaído de quantas desilusões e frios cinismos, um Vulcano cornudo às ordens de Vocências, do meu espaldar senhorial contemplo o rebanho provisório que inventei, patriarca e profeta do meu próprio futuro. E receio, oh como receio, que os deuses a valer me castiguem! E desejo, oh como desejo, que chegue a manhã e eu esteja respirando ainda pelos foles dos pulmões que o enfizema vai dilatando minguando a elasticidade; que o meu coração eia! sus! bata ainda quando, num quintal que não sei, perto, o galo canta.Comunidade de luiz Pacheco
"A verdade, meu amor, é que é mentira.É mentira a saudade que não sinto, a lágrima que não choro. É mentira o querer não ter-te onde nunca vais deixar de estar. É mentira. E essa é que é a verdade"
segunda-feira, dezembro 31, 2007
sexta-feira, dezembro 28, 2007
quarta-feira, dezembro 19, 2007
A escola no centro do debate
Numa altura de festa e projectos renovados, deixo aqui um projecto para o país.
quinta-feira, novembro 22, 2007
Deixarei os jardins a brilhar com os seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais.
Deixarei as constelações panorâmicas destes dias internos.
Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas.E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.
Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados.
É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.
E o leite faz-se tenro durante
os eclipses.
Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne,
asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,esta rede de jardins diante dos incêndios.
E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.
Herberto Helder
terça-feira, novembro 20, 2007

Em dias de chuva...apresenta-se a solidão. No filme ela também se exibe nos trejeitos de quem não quis perceber que se os pingos de chuva trémula não podem ser simples, os homens também não. Em homenagem à simplicidade fica a solidão.
In fear every day,m every evening,
He calls her aloud from above,
Carefully watched for a reason,
Painstaking devotion and love,
Surrendered to self preservation,
From others who care for themselves.
A blindness that touches perfection,
But hurts just like anything else.
Isolation, isolation, isolation.
Mother I tried please believe me,
I'm doing the best that I can.
I'm ashamed of the things I've been put through,
I'm ashamed of the person I am.
Isolation, isolation, isolation.
But if you could just see the beauty,
These things I could never describe,
These pleasures a wayward distraction,
This is my one lucky prize.
Isolation, isolation, isolation, isolation, isolation.
(Joy Division, Closer)
quinta-feira, novembro 15, 2007
O Choro
Aos outros deixou-os sozinhos, também eles a chorar fazendo de conta que riam. Rindo a querer chorar. A morrer de tanto chorar. O homem partiu olhando o vento, olhando para sempre para o vento...partiu sozinho porque o amor dos outros sempre foi um choro fingindo ser riso.
Há choros assim, parados no tempo, como se a distância entre os dois nada mais fosse do que uma repetição, à tanto tempo esperada. Há quem não chore...Há quem chore por todos aqueles que não choraram, e há aqueles que morrem desde o último dia que choraram até ao de hoje, que se parece exactamente com o anterior...não há distância nenhuma entre eles, nem mesmo o tempo...nem mesmo as lágrimas que são as mesmas. Há quem não veja, porque se ri!Há quem não veja...
É por isto que vou deixar de acreditar.
E vou olhar o vento...chamem-me louca, mas vou sozinha ver o vento para um lugar que seja meu e o resto que se foda.
Sim porque o homem do vento também dizia palavrões...os outros claro não entendiam...e nem vale a pena explicar porque.
quarta-feira, novembro 14, 2007
Pele seca
Já passará mais de um mês desde o meu último 'post'. Faltam-me palavras ou vontade. Hoje, por força do sono ou pelo apelo psicadélico da música que vou ouvindo, empurrei-me para aqui.
Da janela avista-se a rotunda da Boavista, o colosso do monumento aos Heróis da Guerra Peninsular. Vêem-se pessoas, passos lentes, um sol de avançado fim de tarde...folhas caídas. Castanhas, vermelhas, amarelecidas. Votadas ao abandono. Não há vento que as abrace, só a miséria de quem as cerca. O Outono é uma estação presa. Encarcerada entre o frio seco que recebe as manhãs e umas quaisqueres gotas de chuva perdidas.
Olho as mãos. A pele seca e as pregas de pele bem expostas perante um toque rígido. Há dias em que imagino esta mesma pele num avanço temporal de 30 anos. Imagino só, porque o meu toque não o consigo sentir. É, no fundo, a magia das sensações. Sente-se quanto tem que ser. As projecções de desenvolvimento económico na UE para os próximos 20 anos pouco interessam à minha pele. Ela não se abre a estudos analíticos, entrega-se ao tempo. Um tempo que se joga no ritmo compassado de quem envolve a rotunda. As folhas desprendem-se do arvoredo. Pelo olhar, quantos dos que passeiam já não se desprenderam da própria pele?
sábado, novembro 10, 2007

J.M. Barrie, Peter Pan, XIII; XV.
sexta-feira, novembro 09, 2007
segunda-feira, novembro 05, 2007
segunda-feira, outubro 01, 2007
Túneis
19h19...e partiu...vagarosamente, como quem se despede em 'slow motion'. De repente, num fim de tarde adormecido, surge aquele pôr-do-sol. Acorda-se de imediato, na esperança de que aquele momento se preserve. O maquinista, de olhar desajustado, acelera. Olho para a frente, tento perscrutar os últimos feixes de luz que vão ficando para trás. Tarde demais. Impõe-se o casario, o arvoredo em catadupa e a negritude de um qualquer túnel que afoga a luz do sol e me coloca no centro do mundo. Olhar perdido preso ao vidro. Agora só um rosto conhecido, aparentemente o meu.
Foi assim, por entre uma passagem fugaz, que recordo o mais belo pôr-do-sol que vi. Vermelho intenso que pintou o céu, como sangue derramado que corre num qualquer beco de esquina em horário tardio. Uma intensidade que me pintou o rosto e avivou o olhar cansado. Desejava poder eternizar o momento numa simples imagem. Nada.
No dia seguinte voltei a procurar a luz, a passagem pelo rio revelou-se muito mais cinzenta, luz dissipada, sem olhar para preencher.
Há dias assim, em que nos arrepiamos. Pegámos na máquina e tentámos voltar a encontrá-los. Nada. Fica a desolação. Há sempre momentos em que temos tudo, outros em que a magia nos foge. Tentam-se guardar os reflexos de brilho da primeira vez, mas, sempre que o comboio cruza as duas margens, e é o cinzento que se revela, há algo que se perde. O brilho no olhar e a vontade estúpida de que o túnel frio não nos invada mais uma vez.
segunda-feira, setembro 24, 2007
Amor é...
quarta-feira, setembro 05, 2007
A morte é um lugar estranho
06:48, 14/08/2007
Mata-me! Seja qual for a língua, a morte assusta turistas e, fundamentalmente, suicidas.
Numa noite perdida em Barcelona dei de caras com o desespero de um filho que perde a mãe, encontrei sotaques familiares com acento do sul, falei espanhol, troquei o inglês pelo português e apanhei o autocarro de serviço especial até aqui.
Mais do que as cidades, as pessoas que as compõem são estranhas . De um lado um grupo de suecas de mini-saia e Estrela Damm na mão, ao meu lado um paquistanês. Urrava mais do que chorava. Saca-rolhas apontado ao coração. Algures na avenida central, presa à confusão de início de noite na Praça Catalunha e aos semáforos intermitentes, deveria existir mais que desolação. Nada.
Quis arrancar-lhe o saca-rolhas, como quem lava a própria consciência. Ele correu atrás de mim. Abraçou-me e levou-o. Fiquei só no autocarro. Sem garantias, sem a certeza do caminho que seguia e sem ideia do que seria do desespero daquele homem, cujo nome se perdeu entre a letargia de um espanhol mal soletrado. Para um turista tudo são recordações, para um homem longe da mãe que morre lentamente duvido que tudo se resuma a meras alucinações. Pelo caminho até à Gràcia pensei no saca-rolhas e nos subterfúgios de um homem morto há muito pela distância dos afectos e pelo olhar triste.
Passaram outros olhares, vozes familiares e mais uma cerveja com sotaque do Magrebe.
Reencontrei o 'punk' italiano do dia anterior numa roda de gente. Esqueci o paquistanês. Ali o desejo era outro...mais vivo e potenciado pela cerveja e pela proximidade dos corpos.
Entre o crepe verde do posto de conveniência e o 'croissant' em La Pau, Barcelona foge. Ficaram os sorrisos, as cervejas partilhadas e as palavras daqueles que me cercavam. As impressões persistem, o desejo de partir nem sempre. Mas, presa a um autocarro em auto-gestão pela cidade, reacende-se a vontade de partir rumo a um qualquer avião com destino a qualquer outra coisa que me faça voltar a querer. Haverá outros desejos que nunca passarão de palavras vãs, presas ao vento que revira os fins de tarde catalães.
Ele ficou com o saca-rolhas e com a morte como desejo. Não pude dilacerar-lhe o coração por ser portuguesa, haveria a necessidade de um espanhol. Na hora da morte o mundo é sempre mais pequeno.
P.S.: Para último dia assinala-se a surpresa de encontrar mil-folhas na única confeitaria aberta àquela hora da manhã na Avenida Guipúscoa.
quarta-feira, agosto 29, 2007
(De)mais fragmentos
O encontro com o Parc Güell, com a vista sobre a cidade deitada, numa espécie de sonho para dias perdidos.
terça-feira, agosto 28, 2007
Mais fragmentos
Mais uma performance de rua. Pessoas entre o vestido vermelho e a veemência de quem desliza movido pelos sons.
segunda-feira, agosto 27, 2007
Barcelona em 5 dias
No primeiro dia após as férias sabe bem reviver outras paragens.
Barcelona mostra-se em imagens e nos sentimentos que desperta. Pelas pessoas, pelo colosso e pelo acento italiano em todas as esquinas, Barcelona mostra-se através da objectiva de quem se perdeu entre o turbilhão humano e o apelo onírico de uma cidade que respira uma magia especial. Ficam os desvarios de Gaudí e os gestos de uma cidade entregue à vida.
Prometem-se outros relatos (à mesa de uma confeitaria em La Pau) para os próximos dias.
domingo, agosto 12, 2007
Centenário do nascimento de Miguel Torga
Súplica
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
Miguel Torga é o nome literário de Adolfo Rocha, nascido em S. Martinho de Anta a 12 de Agosto do ano de 1907.
A revelação que vale mesmo a pena
Cristina Castro – voz, acordeão, percussões.
Ricardo Coelho – sopros, gaita-de-foles galega e transmontana, gralha, percussões.
Hélio Ribeiro – guitarra, bandolim, voz e percussões.
Adérito Pinto – baixo e percussões.
Tiago Soares – bateria tradicional, adufe, tar, bilha, sansula, darbuka, percussões variadas.
Telf: 962 568 471
Email: contacto@penaterra.com
sexta-feira, agosto 10, 2007
domingo, julho 29, 2007
"...E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis
À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras,
o nosso dever falar."
Ao longo da muralha
quarta-feira, julho 18, 2007
sábado, julho 14, 2007
Rabih e Ricardo

Há surpresa. Pela forma como me arrepiei ontem com aquela voz, com a entrega de Jarrod Cagwin, com as reverberações do alaúde de Rabih. Sorri mais do que seria de esperar, assustei-me e gostei. Entreguei-me e soube bem. À surpresa juntaram-se porventura os copos à hora do lanche, os cigarros deixados pelo caminho e aquela amargura de teres regressado novamente.
Voltas sempre quando a tua figura parece diluída. Eras recordações, nada mais. Ontem voltaste a ser o olhar fugidio, hoje o discurso desconexo. Tudo tão teu, por vezes tão nosso.
Foste ver o mar, eu devo ir agora apanhar o pôr-do-sol...ao rio.
quarta-feira, julho 11, 2007
Rascunho
O instantâneo assemelha-se ao rascunho. O molde eficaz, o imediatismo, a facilidade das soluções... Mas, tal como o rascunho, não passa de um projecto imediato na busca de melhores dias.
Hoje olho para mim e vejo um rascunho, um amontoado de projectos em lista de espera. As viagens que não fiz, todos aqueles que não amei, o que deveria ter sido nos dias que nunca aconteceram. As indefinições são perfeitas para quem tem certezas, trágicas para aqueles que esperam.
O sol podia ser uma boa desculpa para ser feliz, não fosse a ameaça dos dias de chuva. As estações sempre empacotaram bem o mundo. Há dias de praia, o refúgio da lareira, as folhas presas na relva, as flores que brotam da terra. Quando os dias de praia não chegam e as ameixoeiras dão fruto em Fevereiro há esperança. O desejo de escapar aos determinismos, a vontade de deixar para trás o que já não nos preenche sem que a solidão nos aprisione. Às vezes presa, outras livre demais para pensar no que já foi, a vida surge. Há dias em que apetece abraçá-la, outros em que só dois braços fariam a diferença.
Vou para casa com as mesmas certezas com que de lá sai esta manhã. Que a vida está cheia de paragens até ao destino final.
terça-feira, junho 19, 2007
Em todos os tempos as mesmas vontades
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
Para não chegar tarde
Não sei de que é que eu fujo
Será desta solidão
Mas porque é que eu recuso
Quem quer dar-me a mão
Vou continuar a procurar a quem eu me quero dar
Porque até aqui eu só
Quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi
Esta insatisfação
Não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder
Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P'ra outro lugar
Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar
Porque até aqui eu só
Estou bem
Aonde não estou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou
Estou além
António Variações
segunda-feira, junho 04, 2007
Urgências
Hoje não.
Deixei de sentir...
Dói só...só dor e a vontade de chorar.
Depois de tantos dias a desejar o sol hoje sinto-me crua, abandonada, sozinha.
Quero voltar a sonhar, urgentemente!
"Ho sognato che mi dicevi che eri triste", disse-me há pouco alguém a quilómetros de distância. É bom saber que sonhaste comigo, que me sentiste para lá da terra e do mar que nos separam. Soube bem!
Grazie Erasmo
Quando o que está mais perto não nos preenche, é bom saber que há gente lá fora. É o que me alimenta.
sábado, junho 02, 2007
Um dia apaixonei-me!Tenho a certeza disso...quantas vezes tenho 13 anos e quero ir buscar esse amor ao fundo da caixa dos chapéus...Há uns meses soube que casou, choveu dentro do meu peito uma semana inteira. Eu tinha um guarda-chuva cheio de florzinhas, com que o abrigava quando chovia, naqueles sábados em que viajávamos juntos. Falávamos de coisas que já não lembro, mas sei que ria, ria muito.Hoje não rio, nem ando de guarda-chuva; nunca mais gostei de me proteger debaixo daqueles estúpidos aros metálicos. A verdade é que nunca mais fizeram o céu com florzinhas. Também nunca mais gostei de chuva.
Há no ser Humano um terrível sentido de adaptabilidade…se não fosse adaptável queria abrigar-te debaixo de um céu ás flores e dizer que os sábados sempre foram os mesmos e que à distância dos meus treze anos me tornei uma pessoa diferente; e quanto mais me distanciava do que era, percebi que perdia a capacidade para amar.
A adolescência é estranha…raramente se recupera dela, quando o ser “Eu” é um estado patológico desde a nascença.
Sim…eu um dia apaixonei-me!
Fotografia de Rosalina Afonso
quarta-feira, maio 23, 2007
19.55
Começou a chover. Passa das sete e meia num dia morno. Caloroso quando me abraçaste com o teu gesto dúbio, cheio de incertezas.
Muitos são os dias em que penso em mim, em jeito de exercício narcisístico. Penso em mim, nos 24 anos que já passaram, nos outros a chegar, mas foi semana passada, no pendular entre Lisboa e Porto, que percebi que a emoção que me falta advém daquilo que nunca projectei. Entre Fátima e Aveiro compreendi que quero a vida sem regras, sem horários, se possível sem os outros. Sinto-me bem sentada sozinha num comboio, o ideal era um destino desconhecido. O ideal era o deserto, o rasto de desolação e nada mais. Queria ver o mundo do mesmo modo que continuo a gostar de te ver. Já te desejei assim, como agora grito pelo mundo. Ferozmente.
terça-feira, maio 15, 2007
Porque vale a pena relembrar
Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.
O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi casais tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia (...).
Já ninguém se apaixona?
Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra.
(...) Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida.
A vida que se lixe.
Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber.(...) Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra.
A vida dura a vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
ELOGIO AO AMOR - de Miguel Esteves Cardoso
segunda-feira, maio 14, 2007
Doze pedaços de lua somente o trabalho do actor sobre o actor.Lembrando o poema de Herberto Hélder o actor põe e tira os cornos de veado. Ninguém ama tão corporalmente como ama o actor.
Uma peça sobre amor. Amor em toda a sua latitude e longitude.
Um trabalho a descoberto onde a rede são as mãos, os braços, as pernas, a cara, a voz , e tudo o que de mais serve a arte suprema do Teatro.
Se saírem de lá a sorrir, simplesmente a sorrir, sentimos que a missão está cumprida.
Encenação de PedroEstorninho com o S.O.T.A.O.
quinta-feira, maio 10, 2007
segunda-feira, maio 07, 2007
Teatradas de regresso!
Estas palavras servem de convite. Gostava de contar com a vossa presença do lado de lá.
Aqui ficam os dias em que estamos em cena. Quanto aos bilhetes para o Teatro do Campo Alegre podem ligar para lá a marcar e dizer que conhecem uma pessoa do elenco que fica por três euros. Para o Centro Cultural de Campo, em Valongo, basta falar comigo ou então comprar directamente no local, pelos mesmos três euros.
Teatro do Campo Alegre - 10 de Maio, 22h
Teatro do Campo Alegre - 11 de Maio, 22h
Teatro do Campo Alegre - 12 de Maio, 22h
Teatro do Campo Alegre - 13 de Maio, 16h
Teatro do Campo Alegre - 15 de Maio, 22h
Teatro do Campo Alegre - 16 de Maio, 22h
Teatro do Campo Alegre - 17 de Maio, 22h
Teatro do Campo Alegre - 18 de Maio, 22h
Teatro do Campo Alegre - 19 de Maio, 22h
Teatro do Campo Alegre - 20 de Maio, 16h
Centro Cultural de Campo, Valongo - 28 de Maio, 21h30
Centro Cultural de Campo, Valongo - 29 de Maio, 21h30
Centro Cultural de Campo, Valongo - 30 de Maio, 21h30
Centro Cultural de Campo, Valongo - 31 de Maio, 21h30
Centro Cultural de Campo, Valongo - 1 de Junho, 21h30
Centro Cultural de Campo, Valongo - 2 de Junho, 21h30

Centro Cultural de Campo, Valongo - 3 de Junho, 21h30
quarta-feira, maio 02, 2007
"Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos"
Eugénio de Andrade
As férias na aldeia trazem sempre um sabor amargo no coração; fazem acreditar que o mundo é como aquele pedaço de céu, plantado por mãos humildes. Como se por momentos o mundo fosse um lugar amável para se poder viver; sem medos, sem sombra, sem quedas. Apenas o silêncio!Somente o silêncio, tão cheio de amor de todas as gentes.
quinta-feira, abril 19, 2007
segunda-feira, abril 16, 2007
quinta-feira, abril 12, 2007
Quando eu nasci a minha irmã tinha dez anos. Hoje a minha mãe contou que a primeira vez que a mana Margarida ouviu o meu coração bateu deu pulos de alegria e gritava: A minha maninha, a minha maninha!Como era bom poder ouvir-te gritar outra vez, mesmo agora, fora de um meio seguro.
segunda-feira, abril 02, 2007
A importância das palavras face a um conteúdo
Tenho um conteúdo inoperante.
Um cansaço inoportuno
Um teatro sem assunto.
Que se foda...o actor é apenas atravessado pelas palavras.
o homem trespassado pelas palavras.
e nada chega para encher o frio de quatro paredes.
Ana Marta Fortuna


























