sexta-feira, setembro 01, 2006

Ponto Final


O Independente publica hoje a última edição. A capa a negro designa o ponto final, a conclusão de um percurso com 18 anos e que marcou o jornalismo português. Para lá das clivagens políticas, o projecto d' O Independente atacou a verticalidade do atavismo nacional, a lógica de pensamento único que militava na imprensa portuguesa e foi o responsável por um interessante proceso de modernização ao nível dos conteúdos e do design. As inovações estéticas e os ventos do novo-jornalismo nos EUA chegavam, com anos de atraso, a Portugal, imerso na cadência do imperialismo cultural francês. Fica o arrojo de Miguel Esteves Cardoso no Suplemento 3, em jeito de lufada de ar fresco.

Hoje falo d' O Independente como registo histórico. As poucas vezes que me passou pelas mãos coincidiram com os anos das sextas-feiras de terror nos gabinetes ministeriais. Teria pouco mais de dez anos e só o colorido, a banda desenhada e os recortes da semana da revista me chamavam a atenção. Há anos que não leio O Independente, nunca o comprei, nunca me atraiu a atenção.

A lógica simplista do título bomba reduz a realidade a jogos de palavras que só contribuem para efeitos de vendas. O jornal cai moribundo, tal como continua morIbunda a direita portuguesa. Não que a perdição da direita ou a queda do grande projecto político de Paulo Portas me entristeçam. Muito pelo contrário. A morte d'O Independente não deixa saudade. Foram muitos os momentos de mesquinhez política e pretensiosismos intelectuais que marcaram os 18 anos de existência que hoje terminam. Fica o lamento pela morte de mais um jornal, quando passa mais de um ano sob a morte d' O Comércio do Porto, esse bem mais digno de uma dor mais sentida. Fica a recordação pelas inovações trazidas e pela liberdade criativa de Miguel Esteves Cardoso.

O projecto político de direita que fundamentava o semanário circulava em torno de um rol de ataques pessoas e de um populismo e palavreado fáceis, lugares comuns em qualquer direita. A amálgama de maus exemplos que perpassou pelos 18 anos do jornal não impediu que subsistissem alguns contributos positivos, mas hoje foi-se, acabou.

Numa altura em que o debate em volta da direita em Portugal parece voltar à ordem do dia, o que já foi o grande objecto de propaganda da direita morre (permanecem outros, mais bem disfarçados). Urge perguntar se o propalado debate sobre a refundação da direita portuguesa não poderá culminar em mais um meio de propaganda rumo ao poder. Ou será qu ele já existe? Porque d' O Independente já sabiamos com o que contar...

2 comentários:

Mariana disse...

Apenas deixo as palavras de uma tão livre senhora...
a cada um a liberdade de um pensamento próprio.

"Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades."
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

dimensaooculta

Arcanjo Miguel disse...

A decadencia da direita não é, nunca será e lutaremos para que não seja somente um dogma. O Independente, salvé o querido MEC, tornou-se mais do que um simbolo da queda inevitável de uma direita, antiga, velha e tão incompreensivel, como a persistência do partido Comunista Português na velha escola que há muito sabemos impraticável. Um requiem apenas pelos trabalhadores que lá laboraram, jornalistas, empregados de limpeza, porteiros, entre outros. O Independente teve a oportunidade de fazer uma coisa que esta direita tentou fazer desde 1974, explicar pedagogicamente o que é o neo-capitalismo liberal, sistema (que desconfio) há muito vivemos. Perdeu! Única felicidade a direita perdeu, outra ressalva apenas a quem do dinheiro, do trabalho exercido diariamente, precisava. O futuro dirá onde vai parar o jornalismo em Portugal, onde vai parar Portugal. Existe pesar claro no fecho de um jornal, talvez quando decidirmos ser PAÍS, talvez aì exista espaço para algo mais do que temos neste momento nas bancas. Viva o Rei O rei morreu.