quarta-feira, junho 25, 2008

Quantas vezes me tenho esquecido de sonhar.
Rego o corpo de desejo
alimentando a fome dos outros
que vem poisar
no meio do meu útero.
Sou Mulher.
Mulher fértil, Mulher louca...Mulher.
Tenho em mim todos os desejos
de homem, de sede e de mar e
sofreguidão de ser ainda mais Mulher
de feições rudes, passo largo
lavrando os caminhos onde me conto.
Mulher de sexo, Mulher mãe
Mulher erótica, Mulher de amor
Puta de Mulher.
Escorrem gotas de suor
enquanto danço por baixo da chuva
desejando ser ainda mais Mulher.

Edvard Munch (Madonna)

terça-feira, junho 24, 2008

O que de nós mais dura: só esqueleto
que nos fez ósseos mais do que moluscos.
O resto acaba tudo: quanto foi sentidos,
vontade, amor, inteligência, carne,
e sobretudo sexo, o sexo acaba
e se desfaz na mesma pasta informe
e fim de tudo que não é só ossos,
apenas os detritos da armação mecânica
de que se pendurou por algum tempo,
em sangue e carne, o porque somos vida.
E aquilo com que a vida se gozou
ou por acaso vidas foram feitas,
acaba como o mais – e os ossos ficam,
dos deuses esburgados. Porque os deuses temem
que sobreviva o sexo em de que morrem
na liberdade de existir-se nele.

Jorge de Sena "Restos Mortais"
Fotografia de Minor White

domingo, junho 22, 2008

Era Domingo e o homem inventou uma máquina de matar balões.



fotografia de Imogen Cunningham · the unmade bed

terça-feira, junho 17, 2008



Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.
os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe de
caminhar sobre as águas do céu.
Daniel Faria "Explicação das Árvores e de Outros Animais"(1998) Caminho sem pés e sem sonhos
Fotografia de Henri Cartier Bresson

terça-feira, junho 10, 2008

Para o teu corpo criaria outdoors
magníficos e circunstanciais.
Os transeuntes boquiabertos apontariam
com dedos tesos a tua aparição beatífica
e ponderariam astros à procura de um sinal.
Calarias a passagem do tráfego
ensurdecerias a má-língua circunvizinha
alimentarias o sonho de guindastes
e as montras haveriam de fechar em sinal de respeito.
Eu, por minha vez, con
sentir-te-ia lancinante e trémulo como uma abóbora, místico e surreal como um acento
de intensidade. Olhar-te-ia com
formigueiro nas pernas e desataria
a implorar-te o perdão de coisas que nunca foram minhas.
Daniel Jonas, MOÇA FORMOSA, LENÇÓIS DE VELUDO( Moça for Muse)
Fotografia de Edward Weston

domingo, junho 08, 2008

II
Prometeu ser virgem toda a vida
Desceu persianas sobre os olhos
alimentou-se de aranhas
humidades
raios de sol oblíquos
quando lhe tocam quereria fugir
se abriram uma porta
escondia o sexo
ruiu num espasmo de Verão
molhada por um sol masculino.
Luiza Neto Jorge, poesia As casas
Pintura de Marc chagall

sexta-feira, junho 06, 2008

Ballad in E minor

Há a desilusão onde a magia já adormeceu. Há a magia que nunca se perde num mundo se coisas desencontradas. Eu acredito na magia. Pela urgência de sentir ou só pela mera necessidade de acreditar nela para viver aqui.

Mas há desilusões que merecem ser vistas em ambiente animado (para esquecer das outras tão reais)
Ballad in E minor

Serralves em festa

Das 8h da manhã de sábado, 7 de Junho, até às 24h de Domingo, 8 de Junho, o Parque, o Museu, o Auditório e a Casa de Serralves recebem mais de 80 actividades e mais de 300 artistas, em mais de 200 momentos de apresentação.
Estão representadas as áreas da música, ópera, dança, performance, teatro, novo circo, leitura, cinema, vídeo, fotografia, oficinas, visitas orientadas e exposições.

Algures no meio dos jardins, a partir da 00:00 vai aconteçer um pequeno concerto comemorativo de alguns anos de existência de uma certa pessoa, onde estão previstas as actuações de várias personalidades do panorama Portuense cantando apenas uma música. É a festa dentro da festa. Estão convidados a apareçer! Se nos encontrarem...
Como prenda de aniversário fica o famoso TOPO GIGIO para se deliciarem!!!!E mais TOPO

fotografia retirada no blog aesperadegodot.blogs.sapo.pt

quinta-feira, junho 05, 2008



Era Maio...acho que sim...tenho a certeza de que há muito tempo não é Maio e tão cedo não voltará a ser.


terça-feira, junho 03, 2008

Da aparência inútil de todos nós fica o rio a descer sobre o mundo num último mito...
O último beijo!
A vida serviu-se de mim para ser escrava de momentos.



Fotografia de Henri Cartier Bresson
Listening "relax" Scout Niblett

domingo, junho 01, 2008

Resistir

Acabaram a noite abraçados pela distância que consumia as cidades.
Abraçados de pé na estação do metro, um em cada direcção, ambos em direcções diferentes com o olhar parado na linha. Eu esperava que algum cedesse ao mínimo murmurar de saudade. Ficaram assim durante horas…eu fiquei com eles até deixar de distinguir o dia da noite.
Nenhum de nós estava ali para apanhar o metro…nenhum de nós queria estar ali, naquele imoral lamento. Por vezes éramos acordados por uma palavra, ou por um qualquer toque ilusório de uma qualquer vida. Eles não tiravam o olhar da linha, eu não conseguia tirar os meus olhos dos dois, à espera que algum cedesse.
Falavam em silêncio daquele abraço…riam baixinho, longe dos outros olhares. Muito longe de qualquer suspeita que seriam dois amantes. Porquê esconder se na verdade ninguém os conhecia?
Há muito tempo deixei de acreditar em histórias de amor…sei que há muito tempo que aqueles dois deixaram de amar, mas nunca vi pessoas tão perfeitas uma para a outra a resistirem-se tanto por uma simples linha de metro.

Fotografia de Zorán Varga " give me your word"

sábado, maio 31, 2008


Tenho saudades de alguma coisa que me faz imensa falta...alguma coisa que já não me lembro.




Fotografia de evasgro "seduta" deviantART
Música roubada do
palavrasdesabão

quinta-feira, maio 29, 2008

Poliamor


Um encontro imperdivél onde se trocarão ideias sobre:Poliamor, Não monogamia responsável, Relações não monogamicas, Relações múltiplas, Crítica á monogamia, Cultura galdéria, e muito mais ...

terça-feira, maio 27, 2008

Paz



Olho-te...daqui...de onde a minha alma não tem fundo.
Onde os meus olhos não choram mais.
Do lugar onde todas as árvores tem nome e onde o mar se esconde
nas flores de Maio.
Olho daqui...como se o dia não tivesse nunca
um fim. Como se o verbo
não tivesse nunca um tempo e tudo fosse sempre infinito.
Olho-te daqui...
De onde nunca conseguiste olhar.
Olho-te daqui...tão alto quanto o frio não pode alcançar, tão alto
que daqui nem sequer te consigo ver.





Fotografia de JenniPenni
Listening Our Broken Garden (The Blinding)

domingo, maio 25, 2008

Desejo

- Pede um desejo!
- Conta-me um poema que seja o Mar.


Unravel - Bjork

Filmes à letra

Em Maio de 2005, o GRIP realizou a sua primeira iniciativa pública, com um ciclo de cinema. Passados três anos, vão assinalar este aniversário com o Filmes à Letra - um ciclo dedicado a todas as letras do 'LGBT'. Quatro fins-de-semana, oito filmes, e conversa q.b. vão ser a forma de comemorar a riqueza e diversidade destas comunidades, que, diferentes entre si, se vão reunir no mesmo espaço.

Depois de cada filme de sábado, para uma conversa aberta e informal, convidaram vários oradores - sobre a transsexualidade, vai falar Nuno Carneiro (psicólogo, Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação do Porto), com a presença de elementos do GRIT - Grupo de Reflexão e Intervenção sobre Transsexualidade (Ivo, Filipe, Luísa), à bissexualidade cabe Isabel Menezes (psicóloga, FPCEUP), ao lesbianismo Maria João Silva (Associação para o Planeamento da Família), e à homossexualidade no masculino Gabriela Moita (psicóloga, FPCEUP).

A entrada é livre
Maria Vai Com as Outras (rua do Almada, 443, Porto)
30 de Maio: Boys Don't Cry trailer
31 de Maio: Ma Vie en Rose - conversa com Nuno Carneiro e elementos do GRIT trailer
6 de Junho: Gia trailer
7 de Junho: Kinsey - conversa com Isabel Menezes trailer
20 de Junho: Imagine Me and You trailer
21 de Junho: Producing Adults - conversa com Maria João Silva trailer
4 de Julho: The Bubble trailer
5 de Julho: Wedding Wars - conversa com Gabriela Moita trailer

sábado, maio 24, 2008

Eclipse Total em VNG

Desde 27 Março de 1999 que o TEP foi transferido para o concelho de Vila Nova de Gaia, sem o apoio do Ministério da Cultura com uma equipa de profissionais desde 1957. Ver antecedentes históricos e actualidade. Conta actualmente com o patrocínio da Câmara Municipal de VNG, de vários mecenas privados e apoio e promoção da empresa MUNICIPAL GAIANIMA.

Estamos em 2008. Época posso dizer pouco motivante para os profissionais das artes e do espectáculo, assim como profissionais da cultura em geral. Talvez por isso, e nunca por outra razão (pois então nem sequer teria mencionado esta tragédia) me sinto obrigada a aqui anunciar o meu profundo pesar pelos mesmos profissionais. Sem me alongar e não tornando este texto por demais doloroso, passo a explicar.
Ontem assisti ao novo espectáculo do TEP, Eclipse Total de Christopher Hampton, que aborda o relacionamento entre dois dos maiores poetas da França do século XIX, Arthur Rimbaud e Paul Verlaine, símbolos de uma nova arte poética.
Muito não se podia esperar da obra de Hampton que já tem sido sucesso em vários países e com adaptação para cinema, mas ninguém, nem mesmo eu faria prever tal feito.
A peça está construída em vários frames que se separam entre si por momentos ao piano, parecendo tirada directamente de dois dos vários princípios do Kitsch : o da Percepção Sinestésica e o Princípio de Mediocridade.
A cenografia é inqualificável. Um alheamento voluntário dos objectos lembra um cenógrafo tão perdido como o abismo deste eclipse. Um piano na boca de cena gasta todo o palco (talvez também os subsídios) tentando esconder toda a pobreza que se viria a deslumbrar dolorosamente durante as quase duas horas de aniquilação teatral.
O acompanhamento musical de André Ramos disfarça ineficazmente a mudança de cenário que acontece quando o pano cai, para distinguir os vários momentos da peça. Outra vez inqualificável, quando falamos de um teatro profissional que pode até não receber subsídios do Ministério da Cultura, mas tem mais apoios que algumas companhias de teatro espalhadas pelo distrito, que vivem e sobrevivem à custa do árduo trabalho e da profunda convicção de que teatro é um caso muito sério.
Os actores, os jovens actores…perdão…corrijo: os jovens pseudo-actores, pseudo-profissionais perdem em qualidade o tempo que despenderam a decorar o texto (facto único que merece algum, pouco, reconhecimento). Texto, texto, texto, texto…Fábio Alves e Pedro Lamas tal como dois pré-adolescentes decoraram o texto como dois iniciados na arte sexual…acumularam palavras como quem acumula esperma para depois as soltarem num orgasmo pueril para um público boçal que ria a qualquer desgraça deste nosso iluminado Rimbaud que certamente dá voltas no túmulo e encomenda a alma ao diabo de ver tal diarreia “profissional”.
O que parecia uma característica trabalhada para a personagem por Fábio Alves, revelou-se um deficiência do próprio actor (aluno da ESMAE) a quem falta muito exercício de colocação de voz e muito muito muito trabalho de actor, talvez quem sabe numa outra vida, possamos adivinhar um possível projecto de actor.
Pedro Lamas numa inglória tentativa de chocar, defeito de encenação e não do actor, ora se cobria nos lençóis para não mostrar os genitais ora ganhava coragem e lá deixava descair o pano…ganhando velocidade e parando deixando a plateia extasiada por este arrojo de modernidade. Será caso para dizer : Viva a nudez fácil e patética no teatro!! Quando se quer dar ao povo o que é do povo tira-se a roupa e mostra-se a pila (ou ameaça) e vão todos para casa a pensar no herói desnudo…nunca actor mas herói.
Pedro Lamas não tem defeito de actor, pois não estamos diante de um actor. Tem defeitos de timidez corporal das pessoas normais. Como não sabe onde colocar as mãos, coloca-as por um lado qualquer assemelhando-se a uma mistura esotérica de homem elefante, corcunda de notre-dame e jovem sofrendo de paralisia cerebral, sem qualquer desprimor para estes. Como era hilariante descobrir-lhe a mãozita colada na barriga, com os deditos apontando para os pés, o cabelo a sacudir de cada vez que berrava uma frase mais intensa e a cabecita tombada para um dos lados quando adquiria um tom pensativo.
O resto do elenco varia entre o mórbido e um limbo de quem não sabe muito bem o que para ali anda a fazer ou de que se trata o texto, ou quem são aqueles dois jovens que se beijam…pensarão decerto: juventude. Juventude e poetas.
Mas nem tudo é mau…desta parafernália inconcebível de mente-captos que vai desde o encenador aos actores, correndo todos os quadrantes desta triste apresentação, salva-se a irmã de Rimbaud Isabelle. Desconheço o nome da actriz (recusei-me a despender de 1 euro para a aquisição do programa) mas a única que se salva no meio de todo aquele zoológico. Postura exemplar, colocação de voz acertada, interpretação coerente e sábia.

Lamento assim, desta forma, mostrando todo o meu profundo pesar pelas companhias do distrito de quem conheço algum trabalho…trabalho a sério. Que vivem mal, por vezes não conseguem sobreviver num panorama tão árido para a cena teatral quando andam estes fantoches de cabeceira a fazer de conta que são profissionais, a viver à custa de subsídios para nos presentearem com verdadeiro esterco. E se já não chegasse a merda feita ainda tem promoção da GAIANIMA. Deus dá nozes a quem não tem dentes.

Para quem não sabe o circo ainda vai estar montado até 25 de Maio, de quarta-feira a sábado, às 21h45, e ao domingo, às 16h00. Não sei se aconselhe a fugir, a comprar 10 bilhetes e queimá-los numa cerimónia de magia negra ou então oferece-los para um arquétipo do que não se deve fazer em teatro. Depois passem pelas companhias que aqui vos deixo, algumas em risco de fechar, com produções independentes algumas com trabalho demonstrado. Ver artigo obrigatoriamente ler a reportagem aqui.
Quanto ao TEP e ao seu eclipse total declaro que o título foi certamente o mais acertado…vivem-se dias de total eclipse no Teatro Experimental do Porto daquele que foi na década de oitenta um dos percursores da actividade teatral do Porto.

Algumas companhias
As Boas Raparigas vão para o Céu, as Más para Todo o Lado
Teatro Plástico
Teatro Bruto
Teatro Só (já não existe)
MetaMortemFase (já não existem)
Mau Artista
Teatro do frio
Teatro de Marionetas do Porto
Teatro Tapa Furos
Teatro Universitário do Porto
Visões Úteis
Acaro-Associação Cultural de Artes Organizadas
Assédio-Associação de Ideias Obscuras
Teatro da Palmilha DEntada
Teatro do Ferro
Últimos-Companhia de Teatro Itenerante
Teatro do bolhão

Sintam-se livres para mencionarem as que faltam.
A noite veio de dentro, começou a surgir do interior de cada um dos objectos e a envolvê-los no seu halo negro. Não tardou que as trevas irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que assobiavam ao cruzar-nos os poros. Seriam umas duas ou três da tarde e nós sentíamo-las crescendo a toda a nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as trevas bifurcavam-na: daí a sensação de que, apesar de a noite também se desprender das coisas, havia nela algo de essencialmente humano, visceral. Como instantes exteriores que procurassem integrar-se na trama do tempo, sucediam-se os relâmpagos: era a luz da tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a partir do que dentro de cada objecto ainda não se indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos, imprimiam-se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então a custo a treva nasalada.*

*Luís Miguel Nava Vulcão I Poesia Completa 1979-1994
Fotografia em deviantART (Only)

quinta-feira, maio 22, 2008

Por detrás do vidro da grande janela do teatro, caem grossas gotas de chuva…fito-as languidamente na esperança que alguém me veja do outro lado. Na saída a única frase que fica numa peça com um exagero pouco saboroso de estímulos externos: “A maldade é o direito dos inferiores”*.
Já vos disse que gosto muito de janelas…todas elas! Gosto de me sentir por detrás delas, de pensar que lhes sou estranha, quando no fundo não passo de uma familiar de sangue.
É mesmo verdade…a tua maldade é um direito que possuis! Não te posso culpar por isso.

* Fassbinder café, direcção de Nuno M Cardoso com a colaboração de Ricardo Pais no TNSJ até 25 de Maio a partir da obra O café de Rainer Werner Fassbinder.

terça-feira, maio 20, 2008

"É tão suave essa hora,
Em que nos foge o dia,
E em que suscita a Lua
Das ondas a ardentia,
Se em alcantis marinhos,
Nas rochas assentado,
O trovador medita
Em sonhos enteado!
O mar azul se encrespa
Coa vespertina brisa,
E no casal da serra
A luz já se divisa.
E tudo em roda cala
Na praia sinuosa,
Salvo o som do remanso
Quebrando em furna algosa..."
Fotografia de Mário Pastor, sem título. Direitos de autor reservados
Poesia de Alexandre Herculano, A Voz