quarta-feira, julho 16, 2008

Porque sou mulher


O dia estava quente. Um calor omnipresente, sufocante, não havia gota de suor que não transportasse um travo de choro. Eram lágrimas talvez...nunca se confirmou. Ela descia a rua apertada com o desejo na face. Não é fácil viver na eminência de um qualquer desastre. Ela sabia que os saltos não ajudavam ao caminho, que o sol não vestia réstia de esperança. Só ela, o calor atroz, a vontade de chegar e um monte de pequenas histórias que resumiam uma existência quase insignificante. Só isso é quase tudo num dia assim.

A inconsistência das histórias passa precisamente pelas versões. Onde há versões há gente. Onde passa o homem, há pó, há sangue, haverá sempre feridas em aberto.

P.S.: De regresso mas sempre por perto

Aqui fica o convite para quem quiser vir ao nosso encontro:)

terça-feira, julho 15, 2008

Hoje ao sair do trabalho, mais uma vez esqueci-me do lugar onde tinha estacionado o carro. No caminho errado vejo um rapaz de pouco mais de 30 anos, muito engraçadinho (do tipo de exemplar que eu gosto de olhar) com um sorriso largo e um olhar brilhante. Olhamo-nos desde o início da rua. Quando passei por ele, disse-me num piropo gentil: Agora tenho a certeza de que vou ser muito feliz no Porto. Apercebi-me logo que tinha deixado o carro no caminho inverso ao que seguia, mas não querendo dar parte de fraca continuei e dei uma volta monstruosa só para poder ir para o meu boguinhas.
Diverte-me a capacidade de os homens acreditam em tudo o que as mulheres representam e na intensa idealização destas apenas pelo aspecto exterior.
Diverte-me mesmo muito!

Pintura de Gustav klimt

quinta-feira, julho 10, 2008

Estou cansada de procurar dentro de mim o tempo que ainda falta para viver.


Fotografia de Paul Strand

terça-feira, julho 08, 2008

Nevoeiro

A cidade caía
casa a casa
do céu sobre as colinas,
construída de cima para baixo
por chuvas e neblinas,encontrava
a outra cidade que subia
do chão com o luar
das janelas acesas
e no ar
o choque as destruía
silenciosamente,de modo que se via
apenas a cidade inexistente.


Fotografia de Mário Bruno Pastor
Carlos de Oliveira, Nevoeiro

segunda-feira, julho 07, 2008

Dia 12 de Julho
15:00H
Praça da República
Vem marchar

sexta-feira, julho 04, 2008

Amália rodrigues,Live in Romania,"Barco Negro",1969

Para os mais novitos e para os mais velhinhos :)
Bom Fim-de-semana.
Anamartafortuna

quinta-feira, julho 03, 2008

Sabes meu amor, uma vez vi-te num sítio incerto e olhaste-me como nunca se pode olhar uma mulher. Não sei que nome dar a esses olhos mas eram um abismo dentro de uma piscina azul cheia de peixes cor das laranjas do meu quintal.
Eu não queria que me conhecesses, eu não queria de todo ter que articular uma única palavra para chegar até ti, o certo é que desde o azul da piscina até o azul do mar, que as palavras não se cansam de chegar e o mundo não se cansa de me esbarrar contra ti na estranha arte dos encontros após eternos desencontros.
Naquele corpo como sempre me conheceu não há transparência que não se suje com a vontade lúgubre de corpos apodrecidos ao sol, com a vontade de comer por dentro da carne, deixando os lábios vermelhos de sangue.
Ainda vejo o azul da piscina…lá dentro ainda vejo bailarinas em pontas a dançar dentro do azul da água, dentro da transparência das minhas mãos, por baixo do sangue das feridas…Por vezes ainda consigo ver!

Pintura de Edgar Degas

terça-feira, julho 01, 2008

Digam que foi mentira, que não sou ninguém,
que atravesso apenas ruas da cidade abandonada
fechada como boca onde não encontro nada:
não encontro respostas para tudo o que pergunto nem
na verdade pergunto coisas por aí além
Eu não vivi ali em tempo algum
Ruy Belo, Digam que foi mentira
Pintura de Georges Braque

quarta-feira, junho 25, 2008

Quantas vezes me tenho esquecido de sonhar.
Rego o corpo de desejo
alimentando a fome dos outros
que vem poisar
no meio do meu útero.
Sou Mulher.
Mulher fértil, Mulher louca...Mulher.
Tenho em mim todos os desejos
de homem, de sede e de mar e
sofreguidão de ser ainda mais Mulher
de feições rudes, passo largo
lavrando os caminhos onde me conto.
Mulher de sexo, Mulher mãe
Mulher erótica, Mulher de amor
Puta de Mulher.
Escorrem gotas de suor
enquanto danço por baixo da chuva
desejando ser ainda mais Mulher.

Edvard Munch (Madonna)

terça-feira, junho 24, 2008

O que de nós mais dura: só esqueleto
que nos fez ósseos mais do que moluscos.
O resto acaba tudo: quanto foi sentidos,
vontade, amor, inteligência, carne,
e sobretudo sexo, o sexo acaba
e se desfaz na mesma pasta informe
e fim de tudo que não é só ossos,
apenas os detritos da armação mecânica
de que se pendurou por algum tempo,
em sangue e carne, o porque somos vida.
E aquilo com que a vida se gozou
ou por acaso vidas foram feitas,
acaba como o mais – e os ossos ficam,
dos deuses esburgados. Porque os deuses temem
que sobreviva o sexo em de que morrem
na liberdade de existir-se nele.

Jorge de Sena "Restos Mortais"
Fotografia de Minor White

domingo, junho 22, 2008

Era Domingo e o homem inventou uma máquina de matar balões.



fotografia de Imogen Cunningham · the unmade bed

terça-feira, junho 17, 2008



Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.
os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe de
caminhar sobre as águas do céu.
Daniel Faria "Explicação das Árvores e de Outros Animais"(1998) Caminho sem pés e sem sonhos
Fotografia de Henri Cartier Bresson

terça-feira, junho 10, 2008

Para o teu corpo criaria outdoors
magníficos e circunstanciais.
Os transeuntes boquiabertos apontariam
com dedos tesos a tua aparição beatífica
e ponderariam astros à procura de um sinal.
Calarias a passagem do tráfego
ensurdecerias a má-língua circunvizinha
alimentarias o sonho de guindastes
e as montras haveriam de fechar em sinal de respeito.
Eu, por minha vez, con
sentir-te-ia lancinante e trémulo como uma abóbora, místico e surreal como um acento
de intensidade. Olhar-te-ia com
formigueiro nas pernas e desataria
a implorar-te o perdão de coisas que nunca foram minhas.
Daniel Jonas, MOÇA FORMOSA, LENÇÓIS DE VELUDO( Moça for Muse)
Fotografia de Edward Weston

domingo, junho 08, 2008

II
Prometeu ser virgem toda a vida
Desceu persianas sobre os olhos
alimentou-se de aranhas
humidades
raios de sol oblíquos
quando lhe tocam quereria fugir
se abriram uma porta
escondia o sexo
ruiu num espasmo de Verão
molhada por um sol masculino.
Luiza Neto Jorge, poesia As casas
Pintura de Marc chagall

sexta-feira, junho 06, 2008

Ballad in E minor

Há a desilusão onde a magia já adormeceu. Há a magia que nunca se perde num mundo se coisas desencontradas. Eu acredito na magia. Pela urgência de sentir ou só pela mera necessidade de acreditar nela para viver aqui.

Mas há desilusões que merecem ser vistas em ambiente animado (para esquecer das outras tão reais)
Ballad in E minor

Serralves em festa

Das 8h da manhã de sábado, 7 de Junho, até às 24h de Domingo, 8 de Junho, o Parque, o Museu, o Auditório e a Casa de Serralves recebem mais de 80 actividades e mais de 300 artistas, em mais de 200 momentos de apresentação.
Estão representadas as áreas da música, ópera, dança, performance, teatro, novo circo, leitura, cinema, vídeo, fotografia, oficinas, visitas orientadas e exposições.

Algures no meio dos jardins, a partir da 00:00 vai aconteçer um pequeno concerto comemorativo de alguns anos de existência de uma certa pessoa, onde estão previstas as actuações de várias personalidades do panorama Portuense cantando apenas uma música. É a festa dentro da festa. Estão convidados a apareçer! Se nos encontrarem...
Como prenda de aniversário fica o famoso TOPO GIGIO para se deliciarem!!!!E mais TOPO

fotografia retirada no blog aesperadegodot.blogs.sapo.pt

quinta-feira, junho 05, 2008



Era Maio...acho que sim...tenho a certeza de que há muito tempo não é Maio e tão cedo não voltará a ser.


terça-feira, junho 03, 2008

Da aparência inútil de todos nós fica o rio a descer sobre o mundo num último mito...
O último beijo!
A vida serviu-se de mim para ser escrava de momentos.



Fotografia de Henri Cartier Bresson
Listening "relax" Scout Niblett

domingo, junho 01, 2008

Resistir

Acabaram a noite abraçados pela distância que consumia as cidades.
Abraçados de pé na estação do metro, um em cada direcção, ambos em direcções diferentes com o olhar parado na linha. Eu esperava que algum cedesse ao mínimo murmurar de saudade. Ficaram assim durante horas…eu fiquei com eles até deixar de distinguir o dia da noite.
Nenhum de nós estava ali para apanhar o metro…nenhum de nós queria estar ali, naquele imoral lamento. Por vezes éramos acordados por uma palavra, ou por um qualquer toque ilusório de uma qualquer vida. Eles não tiravam o olhar da linha, eu não conseguia tirar os meus olhos dos dois, à espera que algum cedesse.
Falavam em silêncio daquele abraço…riam baixinho, longe dos outros olhares. Muito longe de qualquer suspeita que seriam dois amantes. Porquê esconder se na verdade ninguém os conhecia?
Há muito tempo deixei de acreditar em histórias de amor…sei que há muito tempo que aqueles dois deixaram de amar, mas nunca vi pessoas tão perfeitas uma para a outra a resistirem-se tanto por uma simples linha de metro.

Fotografia de Zorán Varga " give me your word"