domingo, janeiro 06, 2008

Em toda a cidade que dorme e respira, eu luto com a dispneia e escrevo. Em toda a cidade que repousa e se esquece, na Avenida dos Combatentes eu debato-me contra a morte e escrevo diante da minha pequena tribo que dorme. A tribo dorme: a Lina mostra um punho fechado (ideias avançadas terá a mocinha?); o rapaz está de costas e quase destapado (parece um Cupido cansado; na larga queixada, porém, uma expressão terrena, máscula - a cara camponesa e rude do avô Matias); o bebé ressona ou balbucia qualquer uma esperança que só ele entende. Ela, a Irene, a minha pequena deusa de tranças loiras, encosta-se a mim e calada cálida repousa cansada. Sou um deus grego ! Fauno serôdio, Pan sem flauta, Orfeu decaído de quantas desilusões e frios cinismos, um Vulcano cornudo às ordens de Vocências, do meu espaldar senhorial contemplo o rebanho provisório que inventei, patriarca e profeta do meu próprio futuro. E receio, oh como receio, que os deuses a valer me castiguem! E desejo, oh como desejo, que chegue a manhã e eu esteja respirando ainda pelos foles dos pulmões que o enfizema vai dilatando minguando a elasticidade; que o meu coração eia! sus! bata ainda quando, num quintal que não sei, perto, o galo canta.

Comunidade de luiz Pacheco

Morreu a 5 de Janeiro de 2008
"A verdade, meu amor, é que é mentira.
É mentira a saudade que não sinto, a lágrima que não choro. É mentira o querer não ter-te onde nunca vais deixar de estar. É mentira. E essa é que é a verdade"

Fotografia de Pedro Ferreira (anarquistaduvall on deviantART)
Texto de Pedro Chagas Freitas In jornal "Notícias de Guimarães" de 21 de Dezembro de 2007

sexta-feira, dezembro 28, 2007

O abandono canta baixinho uma estranha luz, que se enteabre nas entranhas de uma esperança aniquilada.
Ficas só...sozinho no único lugar onde nunca desejaste estar.

fotografia de Pascal Pronnier

quarta-feira, dezembro 19, 2007

A escola no centro do debate


Numa altura de festa e projectos renovados, deixo aqui um projecto para o país.

quinta-feira, novembro 29, 2007



Este Blogue está em greve

quinta-feira, novembro 22, 2007

Deixarei os jardins a brilhar com os seus olhos

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais.
Deixarei as constelações panorâmicas destes dias internos.

Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas.E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.

Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados.
É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.

Cada dia é um abismo atómico.
E o leite faz-se tenro durante
os eclipses.
Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne,
asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,esta rede de jardins diante dos incêndios.
E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.

Herberto Helder

terça-feira, novembro 20, 2007


Em dias de chuva...apresenta-se a solidão. No filme ela também se exibe nos trejeitos de quem não quis perceber que se os pingos de chuva trémula não podem ser simples, os homens também não. Em homenagem à simplicidade fica a solidão.

In fear every day,m every evening,
He calls her aloud from above,
Carefully watched for a reason,
Painstaking devotion and love,
Surrendered to self preservation,
From others who care for themselves.
A blindness that touches perfection,
But hurts just like anything else.

Isolation, isolation, isolation.

Mother I tried please believe me,
I'm doing the best that I can.
I'm ashamed of the things I've been put through,
I'm ashamed of the person I am.

Isolation, isolation, isolation.

But if you could just see the beauty,
These things I could never describe,
These pleasures a wayward distraction,
This is my one lucky prize.

Isolation, isolation, isolation, isolation, isolation.

(Joy Division, Closer)

quinta-feira, novembro 15, 2007

O Choro

Chega um homem de longe, de um outro tempo, de um passado distante. Não diz uma única palavra, fica parado a olhar o vento, parado de cabeça erguida a olhar o vento...parado! Os outros olham-no curiosos, riem, encolhem os ombros; os outros que não ele, riem do que não conseguem ver. Ele...o homem do vento chora...chora muito, tanto que se torna invisível, tanto que não se torna ninguém.
Aos outros deixou-os sozinhos, também eles a chorar fazendo de conta que riam. Rindo a querer chorar. A morrer de tanto chorar. O homem partiu olhando o vento, olhando para sempre para o vento...partiu sozinho porque o amor dos outros sempre foi um choro fingindo ser riso.
Há choros assim, parados no tempo, como se a distância entre os dois nada mais fosse do que uma repetição, à tanto tempo esperada. Há quem não chore...Há quem chore por todos aqueles que não choraram, e há aqueles que morrem desde o último dia que choraram até ao de hoje, que se parece exactamente com o anterior...não há distância nenhuma entre eles, nem mesmo o tempo...nem mesmo as lágrimas que são as mesmas. Há quem não veja, porque se ri!Há quem não veja...
É por isto que vou deixar de acreditar.
E vou olhar o vento...chamem-me louca, mas vou sozinha ver o vento para um lugar que seja meu e o resto que se foda.
Sim porque o homem do vento também dizia palavrões...os outros claro não entendiam...e nem vale a pena explicar porque.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Pele seca





Já passará mais de um mês desde o meu último 'post'. Faltam-me palavras ou vontade. Hoje, por força do sono ou pelo apelo psicadélico da música que vou ouvindo, empurrei-me para aqui.
Da janela avista-se a rotunda da Boavista, o colosso do monumento aos Heróis da Guerra Peninsular. Vêem-se pessoas, passos lentes, um sol de avançado fim de tarde...folhas caídas. Castanhas, vermelhas, amarelecidas. Votadas ao abandono. Não há vento que as abrace, só a miséria de quem as cerca. O Outono é uma estação presa. Encarcerada entre o frio seco que recebe as manhãs e umas quaisqueres gotas de chuva perdidas.

Olho as mãos. A pele seca e as pregas de pele bem expostas perante um toque rígido. Há dias em que imagino esta mesma pele num avanço temporal de 30 anos. Imagino só, porque o meu toque não o consigo sentir. É, no fundo, a magia das sensações. Sente-se quanto tem que ser. As projecções de desenvolvimento económico na UE para os próximos 20 anos pouco interessam à minha pele. Ela não se abre a estudos analíticos, entrega-se ao tempo. Um tempo que se joga no ritmo compassado de quem envolve a rotunda. As folhas desprendem-se do arvoredo. Pelo olhar, quantos dos que passeiam já não se desprenderam da própria pele?

sábado, novembro 10, 2007


"Sometimes, though not often, he had dreams, and they were more painful than the dreams of other boys. For hours he could not be separated from these dreams, though he wailed piteously in them. They had to do, I think, with the riddle of his existence. [...] He had one of his dreams that night, and cried in his sleep for a long time, and Wendy held him tight."


J.M. Barrie, Peter Pan, XIII; XV.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Henri Matisse

segunda-feira, outubro 01, 2007

Túneis


19h19...e partiu...vagarosamente, como quem se despede em 'slow motion'. De repente, num fim de tarde adormecido, surge aquele pôr-do-sol. Acorda-se de imediato, na esperança de que aquele momento se preserve. O maquinista, de olhar desajustado, acelera. Olho para a frente, tento perscrutar os últimos feixes de luz que vão ficando para trás. Tarde demais. Impõe-se o casario, o arvoredo em catadupa e a negritude de um qualquer túnel que afoga a luz do sol e me coloca no centro do mundo. Olhar perdido preso ao vidro. Agora só um rosto conhecido, aparentemente o meu.
Foi assim, por entre uma passagem fugaz, que recordo o mais belo pôr-do-sol que vi. Vermelho intenso que pintou o céu, como sangue derramado que corre num qualquer beco de esquina em horário tardio. Uma intensidade que me pintou o rosto e avivou o olhar cansado. Desejava poder eternizar o momento numa simples imagem. Nada.

No dia seguinte voltei a procurar a luz, a passagem pelo rio revelou-se muito mais cinzenta, luz dissipada, sem olhar para preencher.

Há dias assim, em que nos arrepiamos. Pegámos na máquina e tentámos voltar a encontrá-los. Nada. Fica a desolação. Há sempre momentos em que temos tudo, outros em que a magia nos foge. Tentam-se guardar os reflexos de brilho da primeira vez, mas, sempre que o comboio cruza as duas margens, e é o cinzento que se revela, há algo que se perde. O brilho no olhar e a vontade estúpida de que o túnel frio não nos invada mais uma vez.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Amor é...


As paixões têm destas coisas...apanham-nos de surpresa. Como foi o caso destes anjinhos perdidos num 'stand' entregue a crucifixos.

quinta-feira, setembro 20, 2007

...a morte saiu à rua num dia assim...

quarta-feira, setembro 05, 2007

A morte é um lugar estranho

La Pau, Barcelona,
06:48, 14/08/2007

Mata-me! Seja qual for a língua, a morte assusta turistas e, fundamentalmente, suicidas.
Numa noite perdida em Barcelona dei de caras com o desespero de um filho que perde a mãe, encontrei sotaques familiares com acento do sul, falei espanhol, troquei o inglês pelo português e apanhei o autocarro de serviço especial até aqui.
Mais do que as cidades, as pessoas que as compõem são estranhas . De um lado um grupo de suecas de mini-saia e Estrela Damm na mão, ao meu lado um paquistanês. Urrava mais do que chorava. Saca-rolhas apontado ao coração. Algures na avenida central, presa à confusão de início de noite na Praça Catalunha e aos semáforos intermitentes, deveria existir mais que desolação. Nada.
Quis arrancar-lhe o saca-rolhas, como quem lava a própria consciência. Ele correu atrás de mim. Abraçou-me e levou-o. Fiquei só no autocarro. Sem garantias, sem a certeza do caminho que seguia e sem ideia do que seria do desespero daquele homem, cujo nome se perdeu entre a letargia de um espanhol mal soletrado. Para um turista tudo são recordações, para um homem longe da mãe que morre lentamente duvido que tudo se resuma a meras alucinações. Pelo caminho até à Gràcia pensei no saca-rolhas e nos subterfúgios de um homem morto há muito pela distância dos afectos e pelo olhar triste.

Passaram outros olhares, vozes familiares e mais uma cerveja com sotaque do Magrebe.
Reencontrei o 'punk' italiano do dia anterior numa roda de gente. Esqueci o paquistanês. Ali o desejo era outro...mais vivo e potenciado pela cerveja e pela proximidade dos corpos.
Entre o crepe verde do posto de conveniência e o 'croissant' em La Pau, Barcelona foge. Ficaram os sorrisos, as cervejas partilhadas e as palavras daqueles que me cercavam. As impressões persistem, o desejo de partir nem sempre. Mas, presa a um autocarro em auto-gestão pela cidade, reacende-se a vontade de partir rumo a um qualquer avião com destino a qualquer outra coisa que me faça voltar a querer. Haverá outros desejos que nunca passarão de palavras vãs, presas ao vento que revira os fins de tarde catalães.
Ele ficou com o saca-rolhas e com a morte como desejo. Não pude dilacerar-lhe o coração por ser portuguesa, haveria a necessidade de um espanhol. Na hora da morte o mundo é sempre mais pequeno.

P.S.: Para último dia assinala-se a surpresa de encontrar mil-folhas na única confeitaria aberta àquela hora da manhã na Avenida Guipúscoa.