quarta-feira, maio 14, 2008

Fome :)

Hoje acordei com a chuva a bater na janela do meu quarto. Naquele espaço entre o voltar à realidade e o sonho pensei que era Inverno porque o tempo chorava como tal. Voltei a adormeçer a pensar que tinha as camisolas todas guardadas no armário.
Eram 11 horas quando o despertador tocou...Abri a janela e o sol era a única coisa que via...Acordei com fome do Mundo, da vida, fome do mar, fome das pessoas, de livros, de teatro, de cinema. Fome do riso, de beijos e ginjas.Fome dos cafés, fome de conversas e das palavras idiotas. Sinto o meu coração grande e a rir em gargalhadas redondas.
Não é mesmo o ditado que diz? Depois da tempestade vem a Bonança?
Vamos dançar? 1 2 3 4...

Fotografia de Winktothanatos

terça-feira, maio 13, 2008

Porque hoje não é domingo



A Bíblia faz dele o primeiro dia da semana, as normalizações estandardizadas apontam-no como o último. Paradoxos de circunstância que não alteram nada. Os significados, o sentir que rodeia as coisas não se altera por convenção ou conveniência histórica. As coisas constroem-se por nós. Fechados no quarto, imersos no fumo de um qualquer bar em horas tardias ou presos a recordações que nunca nos abandonam traçamos configurações que podem aquecer, mas não explicam nada.

São raro os domingos em que me distendo para além do comprimento do sofá. Haverão horas mais aborrecidas, mas a preguiça tem a vantagem de nos levar a passear por muito daquilo que já esteve esquecido. Lá fora movem-se na fila para o cinema, enrolam os corpos na brisa que varre a costa, há a Ângela que beijou, pela última vez, o primo André. Houve um qualquer abraço que se perdeu. Vêem-se os miúdos no carrossel, os velhos em debandada e todos aqueles que ficam.

Eu permaneço em casa, por receio do domingo e da falta de ar. Arrepiam-me os olhares de desalento. Desapontam-me os olhares frios e distantes que deveriam ser tudo menos inóspitos.

segunda-feira, maio 12, 2008


"Podes dizer-me, por favor, como hei-de sair daqui?
Isso depende muito do sítio para onde quiseres ir - respondeu o gato.
Não me interessa muito para onde... - disse Alice.
Nesse caso, podes ir por um lado qualquer - respondeu o gato.


Lewis Carrol
Alice no País das Maravilhas
Fotografia de Knavish

210 anos de existência do Teatro S. João

No próximo dia 13 de Maio o Teatro S. João completa 210 anos de existência. Sempre sob o nome São João, o “monumento que a Nação poisou a sul da Praça da Batalha” tem sofrido, desde o século XVIII, diversas transformações ao nível da programação e nos contextos institucionais e arquitectónicos: de Real Teatro de São João (1798) passando por Teatro São João (1920) e Cine São João até ao actual Teatro Nacional São João (1992).
Denominado originalmente Real Teatro de São João, o edifício primitivo foi mandado construir por Francisco de Almada e Mendonça em 1974 e projectado pelo arquitecto italiano Vicente Mazzoneschi. Foi inaugurado com a comédia "A Vivandeira" a 13 Maio de 1798, com o intuito de assinalar os anos do príncipe regente, motivo este que, nos primeiros tempos, ainda deram o nome de Teatro do Príncipe ao referido teatro.
Em 11 de Abril de 1908 um violento incêndio destruiu completamente o teatro. Não se conformando com a perda, logo uma comissão se constituiu para a sua reconstrução, que teve início em 1911 e terminou em 1918 , com projecto de Marques da Silva .
Em 1992, o teatro foi adquirido pelo estado português
Para assinalar a efeméride estão agendadas duas visitas guiadas ao edifício e bastidores do Teatro, às 10h30 e 16h30, com entrada livre. Se estiver interessado em comparecer por favor confirme antecipadamente a presença para o departamento de Relações Públicas, tels. 223401950/51.

sexta-feira, maio 09, 2008


ACORDO-TE, MANHÃ, P'RA TE DIZER
Que venhas, muito há a fazer, campos
Reclamam de Ceres seus cuidados, amplos
Estragos fez o gelo, oh, anda ver.
A terra a éter jaz, vem dar-lhe um beijo.
Não tardes, sobe aonde de alabastro
As nuvens joeiras por seu astro,
Ancinho delicado, mostram pejo.
Teu parametro veste, e aos vitrais
Desprende a sua cor, traz verde à mata,
Depõe as lantejoulas, pobres gemas,
Até a velha costureira as diz banais.
Vem, liberta os amantes das algemas
E mostra ao pescador a rica prata.

Fotografia de Cartier Bresson(negativos)
Texto de Daniel Jonas em Sonótono (edições cotovia)

quinta-feira, maio 08, 2008

Informação a mais

Esta semana fui informada palavra por palavra do seguinte sentimento: “…Preciso de me encontrar…”.
Precisei de muita contenção, já não sei, se para não desatar às gargalhadas ou para mandar foder a pessoa. A verdade é que a frase não me saiu da cabeça, talvez pelo conteúdo desapropriado ou pela informação tardia…Até hoje estive a digerir a frase carregada de qualquer coisa que desconheço…
E que raio!!! O que nós precisamos, não é de nos encontrar, o que precisamos é de deixar de nos escondermos sempre que há uma merdinha que nos faça sentir…

fotografia de alvelyn

segunda-feira, maio 05, 2008

"É a sensação do toque. Numa cidade a sério, as pessoas caminham, roçam umas nas outras, trocam encontrões...Aqui ninguém se toca.
Estamos sempre atrás de metal e vidro. A falta desse toque é tão dolorosa, que nos forçamos a espetarmos uns contra os outros, apenas com a intenção de sentir qualquer coisa."



Fotografia de emsvangoth
"Crash"de paul Haggis (2005)

sábado, maio 03, 2008

"Desde muito novos temos uma estranha sensação nas costas. Custam-nos muito movimentos como o rastejar, o enterrar ou o arrastar. Olham-nos com desconfiança. Não entendemos bem o que nos falta e porque teimam em dizer que nos falta alguma coisa. Quando nos nascem as pequenas asas existe uma tendência quase natural para as esconder, não vá o diabo tecê-las e apontarem-nos também o dedo por termos algo de extraordinário. Evitamos grandes exposições, somos discretos e naturalmente calados. A medo e quase só em intimidade é que vamos abrindo as nossas pequenas asas. Os primeiros voos fazem-se em casa onde, normalmente, nos impulsionam e exemplificam os voos. Depressa nos habituamos às alturas, a ver as diferentes perspectivas da terra, das pessoas e objectos. Gostamos de dias de sol e de vento na cara. Em terra falta-nos algo, sentimo-nos presos, respiramos com dificuldade.Temos várias designações porque as pessoas gostam muito de rotular, etiquetar e tipificar sobretudo o que diz respeito aos outros. Uns chamam-nos cabeças no ar, alienados, almas do outro mundo e até loucos. Outros, porque não sabem bem quem são, procuram um modelo e dizem-nos heróis quando na verdade aquilo que temos é mesmo e nada mais do que asas.Vamos ganhando altura. As asas já não recolhem, em terra tropeçamos e derrubamos tudo. No céu, planamos e fazemos piruetas, somos ágeis.O acasalamento é difícil, não há muitas pessoas com asas, os rituais são arriscados e temos um pouso muito incerto. Mesmo em bando somos considerados um pouco solitários e muito independentes.Os anos vão passando, vamos envelhecendo, as asas ficam mais queimadas pelo sol, porém persistimos, insistimos no voo. Fazemos menos milhas, temos necessidade de ir mais vezes a terra. Então aí reinventamos novas formas de voar e, às vezes, ficamos apenas parados a observar o céu e pensar que já conhecemos uma considerável parte do mundo."

Há palavras que não se comentam, não se explicam, não se encontram em lugar nenhum. Palavras que nunca foram escritas. É magia. Só alguns possuem esse dom, eu tenho a felicidade de conhecer alguém assim e de esse alguém ser minha irmã.
Na impossibilidade de comentar dado a beleza do texto coloco aqui para que todos vocês possam sentir a pessoa linda que ela é.


Texto de Margarida Fortuna em palavras de sabão

Fotografia de Can

quinta-feira, maio 01, 2008

Sorrisos!!!


Fotografia de Avitro in DeviantART

sábado, abril 26, 2008

Procurei um poema, dentro e fora de mim. Nada!
É sábado e o verão sente-se na pele.
Não me apetece o Verão!

sexta-feira, abril 25, 2008


Deliro!!!Não digo nada que valha a pena,
não me encontro nos lugares,
invento mil histórias para esquecer e mil histórias perco
porque me lembro sempre de uma sala pequena
que foi sempre do tamanho do meu desejo.
As vozes não se calam, o coração bate todos os segundos
a uma velocidade patológia e tenho a certeza que assim
não vou durar muito mais tempo,
porque nunca conseguirei parar.
É sempre esse vento...esse vento
fora e dentro de mim, que não me deixa dormir,
que não me dá paz e sempre uma imagem
de um pássaro que de tão pequeno
me destruiu todos os sonhos e a força de viver.
O mundo que não é meu nesta madrugada,
neste dia de trabalho,
este corpo que me conduz cegamente aos sítios
e uma desrealização mata-me numa afasia.
Há dias como todos os dias que para mim nada é de mim
e nada será para mim,
nem as mãos que escrevem!!
Choro por dentro lágrimas de chuva ácida.
Cedo irei morrer.

Pintura de Vincent Van Gogh

terça-feira, abril 22, 2008

Em 25 de Abril de 1974 o Movimento das Forças Armadas (MFA) derrubou o regime de ditadura que durante 48 anos oprimiu o Povo Português. Nessa madrugada do dia inicial, inteiro e limpo (como poetizou Sophia de Mello Breyner) os militares de Abril foram claros nas suas promessas: terminara a repressão, regressara a Liberdade, vinha aí o fim da guerra e do colonialismo, vinha aí a democracia.
Com tudo isso, a Revolução dos Cravos pôs fim ao isolacionismo a que Portugal estava condenado há já vários anos e ajudou ao nascimento de novos países independentes. Constituindo-se o movimento pioneiro de enormes transformações democráticas em todo o mundo e demonstrando que as Forças Armadas não estão condenadas a ser um instrumento de opressão, podendo, pelo contrário, ser um elemento libertador dos povos.
Democratizar, Descolonizar e Desenvolver foi o lema que então fez regressar Portugal ao fórum das nações livres e amantes da paz.
Ao cumprir todas as suas promessas, os capitães de Abril transformaram o seu acto libertador numa acção única na História da Humanidade. Disso se orgulham, nisso se revêem. Porque se não pode apagar a memória, porque importa ter presente a razão de ser do 25 de Abril, a A25A, assumindo-se como herdeira dos que tudo arriscaram para a libertação dos seus concidadãos, convida-o a conhecer a História desses acontecimentos.

Vasco Lourenço


Para lembrar que morreram pessoas na guerra colonial


Para lembrar

25 de Abril sempre fascismo nunca mais


Padre perto do céu em mil balões

Não sei porque mas hoje fartei-me de rir ao ouvir o telejornal. Hoje mais do que nos outros dias em que oiço o telejornal.
A imagem do padre que despareceu pendurado em mil balões é suficiente para que a mente faça trinta mil caminhos cómicos e me faça desabar rebolando no chão de tanto rir.
Talvez possamos incentivar viagens de balão a alguns governantes.
Lololol. Isto de facto é mesmo muito engraçado.

Fotografia e noticia aqui

segunda-feira, abril 21, 2008



Eram sete e meia.
O mais tarde que podias entrar era até às oito
e depois das oito tornava-se reparado.
Havia ordem no mundo
e meia-hora para nós,
meia-hora que não foi como queríamos
meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava
habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.
Levámos meia-hora que afinal só começou depois de terminada
ao despedirmo-nos até à vista.
E até tornar a ver-te
eu não me senti, nem a fome, nem a sede
nem outra vontade que tu,
fiz como os poetas
que apagam a realidade
para lhe pôr outra melhor por cima.

(inédito)
Almada Negreiros

Fotografia de Elipa on DeviantArt
A ouvir black mountain-In the future (Night Walks)

quinta-feira, abril 17, 2008

Até à capital

Viajo a Sul brincando ser forte, brincando às viagens, às virgens do Sol sem dono. Dentro do comboio vou vestir um manto de palavras insignificantes inventando mil histórias que nunca irei contar, rasgando uma a uma as folhas gastas do dia.
Alguém dirá: Já tem os olhos molhados.
Eu vou rir porque cá dentro já nem a dignidade se compõe perante uma lágrima.
Vou tranquilizar os outros da minha morte dizendo que foi fatalidade, vou caminhar até mim dentro de um poema e vou poder parar de sonhar.
Tudo parece adquirir a forma
de catástrofe quando
atrás de mim se fecha
o silêncio do teu corpo.

quarta-feira, abril 16, 2008

Sobre o lado esquerdo


De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem -se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa: "o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim,deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo,esmagar o coração."
de Sobre o Lado Esquerdo

Carlos de Oliveira
Fotografia de Kibicki on DeviantArt

Pé no Passos Manuel

Os Pé na Terra vão lançar o primeiro álbum esta sexta no Passos Manuel, no Porto. Sons cruzados pela presença especial de uma menina de voz doce e olhos azuis, é suficiente para aparecer?

Tragam a família e o corpo de bombeiros da freguesia!



Acredito em pouca coisa.
Quanto àquilo em que não acredito eleva-se a uma vasta lista, dispersa por itens, uns relevantes, outros fundamentalmente irrelevantes, muitos só fúteis. Quando chove lembro-me sempre de coisas simples. A volatilidade de uns quantos pingos perdidos é subestimada. Pelo brilho que deixa no asfalto, pela estranha nostalgia que permanece no ar, pela vivacidade da pele salpicada. É a simplicidade de saber que jornal não se quer ler, do que já foi nosso e não volta a ser.

Perdem-se muitas coisas simples. Talvez pela aparente facilidade da conquista. Ironia ou simples crueza do destino há muitos sorrisos que ficam para trás só porque deixaram de nos fazer sorrir, há lembranças que se desvanecem apenas porque o presente se desfez delas. É tudo simples, demasiado simples para nos lembrarmos disso todos os dias. No entanto, a simplicidade continua a aquecer-me do frio que sinto. Pelas histórias inventadas que te contei, pelas respostas trocadas, por teres adormecido ao meu lado, com o teu cabelo suave, a contar-me das meninas que correm atrás dos meninos, da professora que não te deixou ir jogar futebol. De repente tudo volta a ser simples, como, provavelmente, nunca deixou de ser.

Quero voltar a sucumbir ao campo transformado em cenário de batalha e aos outros dias em que inventámos uma floresta mágica. Não há complexidade na vontade, só a simplicidade de querer ser feliz.

Fotografia: kiss the girl, by *lamo on deviantART

domingo, abril 13, 2008

4:48 Psicose

Sarah Kane nasceu em Essex, Inglaterra, no dia 3 de Fevereiro de 1971. Estudou teatro na Universidade de Bristol especializando-se em Artes na Universidade de Birmingham.
Sarah fez uso do pseudônimo Marie Kelvedon para escrever Crave (Falta) criando uma pequena biografia para o seu alter ego. Tal medida foi tomada como forma de fugir do furor dos críticos que haviam reagido de forma truculenta ao escreverem sobre Blasted, caracterizando-a como “repugnante e obscena”.A obra de Sarah Kane caracteriza-se pela profundidade psicológica dos personagens e pelas imagens agressivas e chocantes.
Porém, a depressão fez com que a dramaturga fosse internada por duas vezes em hospitais psiquiátricos. Nesse período extremamente conturbado ela escreve 4.48 Psychosis (Psicose 4:48), a sua última e mais radical peça. Numa narrativa densa, fragmentada, não-linear 4.48 evidencia uma mente conturbada, depressiva e esquizofrenia à beira da loucura. 4:48 seria a hora em que a maioria dos suicídios acontecem. Esse texto só é encenado após a sua morte no Royal Court Theatre em 23 de Junho de 2000 sob a direção de James MacDonalds (o mesmo que produziu Blasted e dirigiu Cleansed).A depressão faz com que Sarah Kane tente suicídio sem sucesso com pílulas para dormir, mas em 20 de fevereiro de 1999 a escritora inglesa enforca-se no quarto de banho do "London’s King’s College Hospital" aos 28 anos.Hoje, Sarah é considerada a maior dramaturga do final do século XX na Inglaterra.

"Ás vezes viro-me e cheiro o teu cheiro e não consigo continuar não consigo continuar foda-se sem exprimir esta merda física horrível merda dolorosa saudade que tenho de ti. Não posso acreditar que sinta isto por ti e tu não sintas nada. Não sentes nada?
Não sentes nada?

E saio ás seis da manhã e começo à procura de ti.
Se sonhei com uma rua ou um bar ou uma estação vou lá. E espero por ti.
Sabes, acho que estou a ser manipulada mesmo.

Na minha vida nunca tive problemas em dar às pessoas aquilo que elas queriam. Mas nunca ninguém fez isso por mim. Ninguém me toca, ninguém se próxima de mim. Mas agora tocaste-me não sei onde tão fundo foda-se não posso acreditar não posso ser isso para ti. Porque não te consigo encontrar.

Como é que ela é?
Como é que vou reconhecê-la quando a vir?
Ela vai morrer, ela vai morrer, ela só vai morrer foda-se.

Achas que é possível alguém nascer no corpo errado?
Achas que é possível alguém nascer na era errada?

Vai-te foder. Vai-te foder. Vai-te foder por me rejeitares, por nunca estares, vai-te foder por me fazeres sentir uma merda, vai-te foder por me fazeres sangrar amor e vida foda-se (…) mas mais do que tudo, vai-te foder Deus por me fazeres amar uma pessoa que não existe, VAI-TE FODER, VAI-TE FODER, VAI-TE FODER."

"4:48 Psicose" de Sarah Kane
As últimas notas sobre dor, angústia mental, caústicos relatos do uso terapêutico de drogas escritos por Sarah Kane, vão estar em cena no ESTÚDIO ZERO.
10 de Abril - 24 de Abril1 de Maio-18 de Maio
Terça a Domingo às 21h45
Rua do Heroísmo nº 86 (metro do Heroísmo)
Informações e reservas-22 5373265)
estudio0.blogspot.com

sábado, abril 12, 2008



Que dirias se junto a ti me sentasse

e te pedisse para me amares

podendo amanhã não existirmos

um no outro?

Conhecerias-me no meio da multidão

se nunca nos tivessemos encontrado?

Por baixo da pele durante a noite nasce uma casca grossa, do frio das paredas e da solidão das multidões. Em rumores calados percorro as cidades, por demais cansadas, por demais estocadas pela vida...sempre por demais sofridas. Morremos cedo...uma morte sem choro. Sempre por demais sofrida, e as cidades não são mais do que espaço que delas ocupamos quando queremos morrer sozinhos.

Que dirias tu? Que dirias se um dia eu fosse uma cidade diferente?

Fotografia de bloodonthemoon5.deviantart.com

A ouvir Sérgio godinho "Que há-de ser de nós"

quarta-feira, abril 09, 2008

Bengaleiro ou horacias


Físico o tractor quente arremessou

Contra as colheitas de ouro o breu de corvos

Trazendo a noite em ondas de onde andou

De foice afoita, a luz sugando a sorvos.

Modorrento, o vapor da chaminé,

Máquina de fazer nuvens, levando

Ondinas ao empíreo mar, rapé

Da paz entre titãs que ordenhando

Alheias colinas se houvessem mais

Desavindo. Van Gogh ou Fabergé:

Ovos de palha, gemas siderais

Chocados em estrelado canapé.

Entrar nesta pintura eu queria

Se à entrada não pedissem a poesia.


(in Daniel Jonas, Sonótono, Cotovia, 2007)

terça-feira, abril 08, 2008

Narrativas (entre)cruzadas




Manuel, 4/Março de 2008
20h11

Devias acreditar no que nunca te ocorreu ainda perceber, dizia eu para mim, e dizia tal coisa para te fazer acreditar que era de mim que, tu, um dia, pudesses ouvir tal dizer. E, sim, por isso memorizava, tocava a campainha do cérebro e com o punho tacteava na porta da memória, e até ficava especado à espera, pois queria tanto desejar tanta coisa que ainda não sabia como o fazer. Se pudesse dizer que te conhecia como me conheço, não haveria sequer um segredo que pudesses de mim não perceber, e imaginei então, em ti, um ser especial que, em circunstancia alguma, pudesse existir esse dia em que deixasses de perguntar: O que é que estás para aí a dizer? E foi assim que hoje acordei, a pensar em ti. Ao levantar-me daqui, vi o vasto mundo a contar ao tempo como já se apercebeu de que, num dia a cara metade desse mesmo tempo é meditada no escuro. Chamaram-lhe o sol e a lua, mas eu não percebi a ideia. Era ainda criança quando me vi diferente de tanto do que cá fora se mostra. Ainda não cresci, sabias? Por isso é que devo acreditar no que nunca me ocorreu ainda perceber. Sonhava alto estas frases, mas tinha medo de as soltar. Seriam elas palavras de uma criança para tanta desta gente que, corre à procura de alcançar um qualquer objectivo num sei lá que prazo. É que sei lá eu como crescer? Mas sabia eu recordar-te o que tinha bem fechado na caixinha da memória, sabia, sim, cantar-te devagarinho esta história que tinha para ti destinada...


Mariana, 8/Abril de 2008 19h21

Há histórias que se guardam em segredo, outras em que o pulsar da vontade é tudo o que há para contar. Quando o desejo ocupa o papel principal, o tempo tem esse estranho hábito de morrer preso ao teu toque. O dia está cinzento e a minha história prende-se aqui, num espaço que já foi nosso.

Há dias de Primavera assim. Fugidios e sem réstia de esperança. Não acredito em narrativas entrecruzadas, só numa espécie de encontro. Reencontro-me agora com uma primeira viagem, dispersa em quilómetros e em palavras soltas. As curvas adormeceram, o rio ficou para trás, o teu toque continua a aquecer-me.

Vejo gente mas sempre que estou perdida lembro-me de ti.

Num olhar mais desatento...as nuvens. Cerro o olhar e continuo a ouvir o sotaque francês da mesa ao lado. Há dias em que gostava de acreditar na magia, nas últimas manhãs sinto só uma estranha agonia. Culpa da Primavera, dos outros ou solitariamente minha...
Agora, com o dia dissipado, olho para as mãos e penso que, por vezes, não é assim tão complicado passar verniz colorido pelos órgãos internos. O colorido é coisa que passa, mas enquanto dura é única e visceralmente nosso.

sábado, abril 05, 2008

























"Se as crianças me perguntarem o que quero
respondo quero morrer.
Como a silila de Cumas se as crianças
me perguntarem o que estás aí a fazer
baloiçando nessa garrafa suspensa
respondo quero morrer.
Nesta garrafa suspensa baloiçando no ar
desgrenhado, com o peito arfante e o coração
a rebentar de fúria selvagem
se as crianças me perguntarem
o que estás aí a fazer, o que quero
respondo quero morrer.

Daniel Jonas em "Os fantasmas inquilinos"
Fotografia de Martin Stranka




terça-feira, abril 01, 2008

Jaz a manhã de prata
na estrada de asfalto.
Por cima da música, por cima do barulho dos
carros que passam apressados,
o som do bater do coração...
Precipito-me na ponte por dentro
da cidade de nevoeiro,
manhã de prata.
Manhã.
Saio todos os dias de tua casa
e todos os dias é para lá que quero voltar,
imposta num duro silêncio
que não aceito.


fotografia de autor desconhecido

segunda-feira, março 31, 2008

Hiato

"Parece que toda a minha criação é um esforço para tecer uma teia de relações com o mundo; teço-a continuamente porque uma vez ela foi rasgada. Mas tal como desejo que as teias sejam sempre verdadeiras não sei como romper as que são falsas (...) Sinto como Dostoievski que o intelecto está na origem de tudo o que não é. Das falsidades. Prefiro a zona das paixões, mesmo com as tempestades."

Fotografia de Alberto
Texo de Anais Nin in Diário, Vol III
Listening " OneMoreOneNightStand", by A Weather aqui

quinta-feira, março 27, 2008

Quando tinha 9 anos a minha irmã foi estudar para Coimbra. Ela tinha feito 19 em Agosto e lembro-me do orgulho que sentia nela assim como da dor que foi ao ver que ia embora e deixava de estar connosco todos os dias.
Cada um chorou à sua maneira…eu andava com a fotografia dela para todo o lado. Um dia num exame de ciências, a professara pensando que eu estava a copiar, levantou a folha do exame e descobriu a fotografia que levava para não me esquecer de tudo o que ela era para mim…chorei tanto nesse dia de tantas saudades que sentia.
Desde os 9 que estou habituada a estar com a minha irmã quando vem aos fins-de-semana, não todos, não tantos como gostaríamos e de todas as vezes que ela vai embora, fica o mesmo vazio, o mesmo silêncio suspenso no tempo, a mesma dor dos meus 9 anos, a estranha pequenez e a ideia de que não vou conseguir viver sem ela ao meu lado. As lágrimas escondem-se atrás do tempo e aperta-me a garganta reduzindo o coração a pó.
Queria ficar a olhar-te sempre que chegas…sentir o teu cheiro de alfazema no meu quarto. Ficar a abraçar-te como anteontem no escuro da minha solidão.
Fazes-me falta mana e não te digo vezes suficientes que te amo. Mas a verdade é que sinto a tua falta como a criança que ainda existe dentro de mim e sinto medo, tanto que por vezes nem consigo respirar.

Volta depressa.

fotografia de Napoleon Brousseau on Deviantart





Fotografia Marc on deviantart

ORNATOS VIOLETA - Ouvi dizer

"...A cidade está deserta
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte
Nas casas, nos carros,
Nas pontes, nas ruas...
Em todo o lado essa palavra repetida ao expoente da loucura
Ora amarga,ora doce
Para nos lembrar que o amor é uma doença
Quando nele julgamos ver a nossa cura."

segunda-feira, março 24, 2008

Nem sempre se deve desconfiar das pessoas graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés e mais longe ainda das mãos que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é. Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, destas pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.

In “A Nuvem Prateada das Pessoas Graves”
Rui Costa

Imagem de Robert & Shana ParkeHarrison

A quoi ça sert l'amour?

Para Sorrir

Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos magoa,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.
Pablo Neruda

segunda-feira, março 17, 2008

domingo, março 16, 2008

Se


Se tanto me dói que as coisas passem. É porque
cada instante em mim foi vivo.
Na luta por um bem definitivo.
Em que as coisas se eternizassem.
Sophia de Mello Breyner
fotografia SaintSazzle

sábado, março 15, 2008

Chamara-me de um longe lugar…tão longe que eu nunca ouvira falar…tão longe que eu não reconheci as palavras. Com a força do tempo as palavras ficaram claras e a distância perdeu a voz. Levou-me pela mão a ver o mar num Inverno cheio de Sol.
Um dia soprou um vento muito forte…vento do norte, eu deixei de lhe ver as mãos e tudo ficou longe e irreconhecível como era no princípio.
Nunca mais vou saber reconhecer outras mãos!

fotografia Zemotion




quinta-feira, março 13, 2008


Vai decorrer no Ateneu Comercial do Porto um workshop de fotografia com a duração aproximada de 50 horas em horário pós laboral e com o custo de €65 na totalidade.
Pedro Ferreira será o formador de um programa onde se pretende abordar técnica e
prática da fotografia mas também um pouco de história e conceitos.
O inicio está previsto para 1 de Abril
As inscrições estão abertas para: geral@ateneucomercialporto.ptou 22335410/2
Mais informações podem ser obtidas, brevemente,

quarta-feira, março 05, 2008

Feliz Aniversário

Hoje alguém nasceu...

Morrerão muitos sorrisos antes de poderem nascer.



Imagem de Luise Andersen

quinta-feira, fevereiro 28, 2008


"Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa"

Sophia de Mello Breyner Andresen
Fotografia Valkirye

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Feist How my Heart Behaves

"emprestado" por palavrasdesabão.blogspot.com



O meu pai tem 64 anos, está casado com a minha mãe, já nem eu sei desde quando.

Hoje quando acordei olhei pela janela e vi o meu pai a remexer no jardim, de cócoras, a andar de um lado para o outro, pensei que seria mais uma das mudanças radicais que em breve tomaria a cabo.

De repente entra em casa com um pequeno ramo de violetas, com folhinhas verdes a envolver as flores que cuidadosamente amarrou com um fio e deixou num frasquinho no quarto deles. Quando voltou do quarto, sem eu lhe perguntar nada disse-me baixinho: " São para a minha namorada e hoje vou ter direito a um beijinho".

Vou chorar até o amanhar chegar, chorar todos os dias, chorar até que o tempo se esqueça que eu tenho que chorar.

Ilustração de Rébecca Dautremer


terça-feira, fevereiro 12, 2008

Lamb-Gabriel

Sim...é coisa de rapariga, mas lembro-me de um amor que nasceu assim.Foi tão bonito vê-las!Eu acreditei outra vez.anamartafortuna

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

"Humanocomique"





O mundo que se refaz em encontros fortuitos.


(Fotos: René Maltête)

Algemas


Há projectos que nascem com o prazo de validade já expirado. Não deixam de alimentar os dias mais solitários, mas tornam-se meras companhias sem nunca serem verdadeiros companheiros de viagem.Trespassando as amarguras do que poderia ter sido e de tudo aquilo que já foi e nunca mais voltará a ser, há viagens que merecem ser feitas e um monte de projectos que têm, pelo menos, o direito de habitar o imaginário de noites perdidas.

Há dias falaram-me do medo. Do terror de ser deixado, de ficar para trás com sonhos por cumprir. Há o medo de perder e também um outro. Vencer, de facto. Assusta pensar que somos capazes de ultrapassar o aconchego inóspito das noites e viver. O medo refreia as emoções. O medo faz-me sentir saudades tuas todas as noites e ceifa-me, de forma abrupta e impiedosa, qualquer vontade.

O dia acordou solarengo, à laia de uma ligeira dor de cabeça. Haverá feridas que perduram, sonhos que o deixam de ser. Fica o sol e, em dias de calor, surge o desejo de ter o mundo. E há mundos que nunca se alcançam quando se permanece algemado a uma secretária.

(Autor da foto: Pedro Moreira @olhares)

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Feist 1 2 3 4

Para dias de festa...por Mariana Santos

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Bjork Anchor Song live

A ponte

Desligo a luz, vejo a minha imagem no espelho desaparecer no meio da solidão escura que anoitece os meus dias. Vejo-me uma última vez antes de me olhar novamente para o mesmo espelho numa torturante sucessão de dias e noites que não distingo.
Atravessei a cidade do Porto na única ponte que me fecha o passado com tecidos transparentes…Sozinha. Já não havia imagens deste tempo, não poderia sequer ter existido alguma imagem dentro de mim para além dessas, dentro das minhas mãos, dentro dos meus olhos.
Guardo a exaustão no coração e no corpo transpiro lágrimas que me arrefecem as noites.
Arrasto-me por dentro…por dentro das imagens, por dentro da noite que não amanhece, por dentro das palavras que não tenho, por dentro das respostas que não oiço. Por dentro!
Por dentro morro com a cidade que vai ficando atrás de mim com as cortinas transparentes a assombrar o meu caminho.
Faz frio dentro das minhas mãos, no sangue que corre nas veias e vai chegando frio aos olhos.
Vou triste em frente do asfalto da única ponte que me fecha o passado com tecidos transparentes…triste. E ninguém me vem esperar com honestidade do outro lado. Ninguém me vem salvar da mentira, nem ninguém me tirará o peso das respostas que não oiço. Dói alguma coisa dentro de mim, não é um órgão, um membro, nem uma parte do corpo, dói-me em todo o lado onde se lembra. Toda a parte que se lembra dói-me como a solidão da morte.
Abro a cama…fecho os olhos e durante muito tempo antes de os fechar vai sempre chover por dentro dos meus olhos e eu não me vou querer lembrar porque. Apenas da imagem da cidade a ficar atrás de mim com os seus tecidos transparentes na única ponte que me fecha o passado com uma fronteira que não existe.

Morreu Luís Ralha

Tenho-me assim perto do céu, presa por 10 balões coloridos, tão longe do mundo, tão longe de mim.

Pintura de Luís Ralha gentilmente "emprestada"no blog limpa-vias.blogspot.com

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram os tais peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade:
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus
Eugénio de Andrade
Fotografia de blowup

terça-feira, janeiro 08, 2008

domingo, janeiro 06, 2008

Em toda a cidade que dorme e respira, eu luto com a dispneia e escrevo. Em toda a cidade que repousa e se esquece, na Avenida dos Combatentes eu debato-me contra a morte e escrevo diante da minha pequena tribo que dorme. A tribo dorme: a Lina mostra um punho fechado (ideias avançadas terá a mocinha?); o rapaz está de costas e quase destapado (parece um Cupido cansado; na larga queixada, porém, uma expressão terrena, máscula - a cara camponesa e rude do avô Matias); o bebé ressona ou balbucia qualquer uma esperança que só ele entende. Ela, a Irene, a minha pequena deusa de tranças loiras, encosta-se a mim e calada cálida repousa cansada. Sou um deus grego ! Fauno serôdio, Pan sem flauta, Orfeu decaído de quantas desilusões e frios cinismos, um Vulcano cornudo às ordens de Vocências, do meu espaldar senhorial contemplo o rebanho provisório que inventei, patriarca e profeta do meu próprio futuro. E receio, oh como receio, que os deuses a valer me castiguem! E desejo, oh como desejo, que chegue a manhã e eu esteja respirando ainda pelos foles dos pulmões que o enfizema vai dilatando minguando a elasticidade; que o meu coração eia! sus! bata ainda quando, num quintal que não sei, perto, o galo canta.

Comunidade de luiz Pacheco

Morreu a 5 de Janeiro de 2008
"A verdade, meu amor, é que é mentira.
É mentira a saudade que não sinto, a lágrima que não choro. É mentira o querer não ter-te onde nunca vais deixar de estar. É mentira. E essa é que é a verdade"

Fotografia de Pedro Ferreira (anarquistaduvall on deviantART)
Texto de Pedro Chagas Freitas In jornal "Notícias de Guimarães" de 21 de Dezembro de 2007

sexta-feira, dezembro 28, 2007

O abandono canta baixinho uma estranha luz, que se enteabre nas entranhas de uma esperança aniquilada.
Ficas só...sozinho no único lugar onde nunca desejaste estar.

fotografia de Pascal Pronnier

quarta-feira, dezembro 19, 2007

A escola no centro do debate


Numa altura de festa e projectos renovados, deixo aqui um projecto para o país.

quinta-feira, novembro 29, 2007



Este Blogue está em greve

quinta-feira, novembro 22, 2007

Deixarei os jardins a brilhar com os seus olhos

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais.
Deixarei as constelações panorâmicas destes dias internos.

Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas.E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.

Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados.
É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.

Cada dia é um abismo atómico.
E o leite faz-se tenro durante
os eclipses.
Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne,
asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,esta rede de jardins diante dos incêndios.
E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.

Herberto Helder

terça-feira, novembro 20, 2007


Em dias de chuva...apresenta-se a solidão. No filme ela também se exibe nos trejeitos de quem não quis perceber que se os pingos de chuva trémula não podem ser simples, os homens também não. Em homenagem à simplicidade fica a solidão.

In fear every day,m every evening,
He calls her aloud from above,
Carefully watched for a reason,
Painstaking devotion and love,
Surrendered to self preservation,
From others who care for themselves.
A blindness that touches perfection,
But hurts just like anything else.

Isolation, isolation, isolation.

Mother I tried please believe me,
I'm doing the best that I can.
I'm ashamed of the things I've been put through,
I'm ashamed of the person I am.

Isolation, isolation, isolation.

But if you could just see the beauty,
These things I could never describe,
These pleasures a wayward distraction,
This is my one lucky prize.

Isolation, isolation, isolation, isolation, isolation.

(Joy Division, Closer)

quinta-feira, novembro 15, 2007

O Choro

Chega um homem de longe, de um outro tempo, de um passado distante. Não diz uma única palavra, fica parado a olhar o vento, parado de cabeça erguida a olhar o vento...parado! Os outros olham-no curiosos, riem, encolhem os ombros; os outros que não ele, riem do que não conseguem ver. Ele...o homem do vento chora...chora muito, tanto que se torna invisível, tanto que não se torna ninguém.
Aos outros deixou-os sozinhos, também eles a chorar fazendo de conta que riam. Rindo a querer chorar. A morrer de tanto chorar. O homem partiu olhando o vento, olhando para sempre para o vento...partiu sozinho porque o amor dos outros sempre foi um choro fingindo ser riso.
Há choros assim, parados no tempo, como se a distância entre os dois nada mais fosse do que uma repetição, à tanto tempo esperada. Há quem não chore...Há quem chore por todos aqueles que não choraram, e há aqueles que morrem desde o último dia que choraram até ao de hoje, que se parece exactamente com o anterior...não há distância nenhuma entre eles, nem mesmo o tempo...nem mesmo as lágrimas que são as mesmas. Há quem não veja, porque se ri!Há quem não veja...
É por isto que vou deixar de acreditar.
E vou olhar o vento...chamem-me louca, mas vou sozinha ver o vento para um lugar que seja meu e o resto que se foda.
Sim porque o homem do vento também dizia palavrões...os outros claro não entendiam...e nem vale a pena explicar porque.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Pele seca





Já passará mais de um mês desde o meu último 'post'. Faltam-me palavras ou vontade. Hoje, por força do sono ou pelo apelo psicadélico da música que vou ouvindo, empurrei-me para aqui.
Da janela avista-se a rotunda da Boavista, o colosso do monumento aos Heróis da Guerra Peninsular. Vêem-se pessoas, passos lentes, um sol de avançado fim de tarde...folhas caídas. Castanhas, vermelhas, amarelecidas. Votadas ao abandono. Não há vento que as abrace, só a miséria de quem as cerca. O Outono é uma estação presa. Encarcerada entre o frio seco que recebe as manhãs e umas quaisqueres gotas de chuva perdidas.

Olho as mãos. A pele seca e as pregas de pele bem expostas perante um toque rígido. Há dias em que imagino esta mesma pele num avanço temporal de 30 anos. Imagino só, porque o meu toque não o consigo sentir. É, no fundo, a magia das sensações. Sente-se quanto tem que ser. As projecções de desenvolvimento económico na UE para os próximos 20 anos pouco interessam à minha pele. Ela não se abre a estudos analíticos, entrega-se ao tempo. Um tempo que se joga no ritmo compassado de quem envolve a rotunda. As folhas desprendem-se do arvoredo. Pelo olhar, quantos dos que passeiam já não se desprenderam da própria pele?

sábado, novembro 10, 2007


"Sometimes, though not often, he had dreams, and they were more painful than the dreams of other boys. For hours he could not be separated from these dreams, though he wailed piteously in them. They had to do, I think, with the riddle of his existence. [...] He had one of his dreams that night, and cried in his sleep for a long time, and Wendy held him tight."


J.M. Barrie, Peter Pan, XIII; XV.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Henri Matisse

segunda-feira, outubro 01, 2007

Túneis


19h19...e partiu...vagarosamente, como quem se despede em 'slow motion'. De repente, num fim de tarde adormecido, surge aquele pôr-do-sol. Acorda-se de imediato, na esperança de que aquele momento se preserve. O maquinista, de olhar desajustado, acelera. Olho para a frente, tento perscrutar os últimos feixes de luz que vão ficando para trás. Tarde demais. Impõe-se o casario, o arvoredo em catadupa e a negritude de um qualquer túnel que afoga a luz do sol e me coloca no centro do mundo. Olhar perdido preso ao vidro. Agora só um rosto conhecido, aparentemente o meu.
Foi assim, por entre uma passagem fugaz, que recordo o mais belo pôr-do-sol que vi. Vermelho intenso que pintou o céu, como sangue derramado que corre num qualquer beco de esquina em horário tardio. Uma intensidade que me pintou o rosto e avivou o olhar cansado. Desejava poder eternizar o momento numa simples imagem. Nada.

No dia seguinte voltei a procurar a luz, a passagem pelo rio revelou-se muito mais cinzenta, luz dissipada, sem olhar para preencher.

Há dias assim, em que nos arrepiamos. Pegámos na máquina e tentámos voltar a encontrá-los. Nada. Fica a desolação. Há sempre momentos em que temos tudo, outros em que a magia nos foge. Tentam-se guardar os reflexos de brilho da primeira vez, mas, sempre que o comboio cruza as duas margens, e é o cinzento que se revela, há algo que se perde. O brilho no olhar e a vontade estúpida de que o túnel frio não nos invada mais uma vez.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Amor é...


As paixões têm destas coisas...apanham-nos de surpresa. Como foi o caso destes anjinhos perdidos num 'stand' entregue a crucifixos.

quinta-feira, setembro 20, 2007

...a morte saiu à rua num dia assim...

quarta-feira, setembro 05, 2007

A morte é um lugar estranho

La Pau, Barcelona,
06:48, 14/08/2007

Mata-me! Seja qual for a língua, a morte assusta turistas e, fundamentalmente, suicidas.
Numa noite perdida em Barcelona dei de caras com o desespero de um filho que perde a mãe, encontrei sotaques familiares com acento do sul, falei espanhol, troquei o inglês pelo português e apanhei o autocarro de serviço especial até aqui.
Mais do que as cidades, as pessoas que as compõem são estranhas . De um lado um grupo de suecas de mini-saia e Estrela Damm na mão, ao meu lado um paquistanês. Urrava mais do que chorava. Saca-rolhas apontado ao coração. Algures na avenida central, presa à confusão de início de noite na Praça Catalunha e aos semáforos intermitentes, deveria existir mais que desolação. Nada.
Quis arrancar-lhe o saca-rolhas, como quem lava a própria consciência. Ele correu atrás de mim. Abraçou-me e levou-o. Fiquei só no autocarro. Sem garantias, sem a certeza do caminho que seguia e sem ideia do que seria do desespero daquele homem, cujo nome se perdeu entre a letargia de um espanhol mal soletrado. Para um turista tudo são recordações, para um homem longe da mãe que morre lentamente duvido que tudo se resuma a meras alucinações. Pelo caminho até à Gràcia pensei no saca-rolhas e nos subterfúgios de um homem morto há muito pela distância dos afectos e pelo olhar triste.

Passaram outros olhares, vozes familiares e mais uma cerveja com sotaque do Magrebe.
Reencontrei o 'punk' italiano do dia anterior numa roda de gente. Esqueci o paquistanês. Ali o desejo era outro...mais vivo e potenciado pela cerveja e pela proximidade dos corpos.
Entre o crepe verde do posto de conveniência e o 'croissant' em La Pau, Barcelona foge. Ficaram os sorrisos, as cervejas partilhadas e as palavras daqueles que me cercavam. As impressões persistem, o desejo de partir nem sempre. Mas, presa a um autocarro em auto-gestão pela cidade, reacende-se a vontade de partir rumo a um qualquer avião com destino a qualquer outra coisa que me faça voltar a querer. Haverá outros desejos que nunca passarão de palavras vãs, presas ao vento que revira os fins de tarde catalães.
Ele ficou com o saca-rolhas e com a morte como desejo. Não pude dilacerar-lhe o coração por ser portuguesa, haveria a necessidade de um espanhol. Na hora da morte o mundo é sempre mais pequeno.

P.S.: Para último dia assinala-se a surpresa de encontrar mil-folhas na única confeitaria aberta àquela hora da manhã na Avenida Guipúscoa.

quarta-feira, agosto 29, 2007

BIRD FLU - M.I.A.



Quero dançar!

(De)mais fragmentos



O encontro com o Parc Güell, com a vista sobre a cidade deitada, numa espécie de sonho para dias perdidos.

terça-feira, agosto 28, 2007

Mais fragmentos



Mais uma performance de rua. Pessoas entre o vestido vermelho e a veemência de quem desliza movido pelos sons.