Em jeito de recordação aqui ficam as imagens de uma breve passagem por Coimbra. Longe da Sé Velha ou da fachada Faculdade de Direito sobrevivem as imagens de uma artéria central movida pela gente. Por quem passa, pelos que olham de frente, pelos outros que auscultam de relance e pelos dois com quem partilhei o fino.
terça-feira, março 20, 2007
Tardes de Coimbra
Em jeito de recordação aqui ficam as imagens de uma breve passagem por Coimbra. Longe da Sé Velha ou da fachada Faculdade de Direito sobrevivem as imagens de uma artéria central movida pela gente. Por quem passa, pelos que olham de frente, pelos outros que auscultam de relance e pelos dois com quem partilhei o fino.
terça-feira, março 13, 2007

Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela nao vier de madrugada
Outra que eu souber será pra ti.
Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar.
Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor.
Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme quinda à noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer.
Zeca Afonso
postado por Ana Marta Fortuna
segunda-feira, março 12, 2007
Estrela da Tarde

domingo, março 11, 2007
Quando era criança a primavera chegava assim...no cheiro!Sentia o cheiro das flores logo pela manhã, a pele parecia mentol e o sol demorava-se pelas tardes. Escutavamos o cantar dos grilos a entrar pela janela do quarto, o vento morno a cobrir as brincadeiras e o céu azul a estender-se pelo horizonte, quando nos deitávamos com as costas na relva.
As flores eram as primeiras a ser notadas...muitas...até se perder de vista. Depois chegavam as joaninhas, com as suas capas vermelhas de bolinhas negras a percorrer os dedos para depois fugir, voando sem destino.
Realizavamos autênticas maratonas de bicicleta até ao rio, esquecendo sempre que o caminho de volta tinha que ser feito.
A mãe deixava-me andar descalça na relva, na terra, nas pedras quentes da eira...molhavamos os pés quando ela regava o jardim e corríamos atrás das borboletas que nasciam de um dia para o outro, tal como a Primavera.
Na sexta-feira ela chegou assim...não havia a eira, a mãe, os pés molhados, as costas deitadas na relva, mas ela chegou assim! Eu não sou criança mas a Primavera chegou.
Acordei para ir trabalhar, ouvi uma chefe recém licenciada na sua total ignorância, pequenina em sensatez proferir aguçadamente palavras de descontentamento, vi um homem chorar e uma colega a manifestar os seus dotes de comunicação. Vi um mundo que não cabia na minha infância e senti um coração pequenino na primavera que chegava.
Veio a tarde...o rio outra vez...amava na Primavera. Talvez a primeira vez!
Veio o sábado e a praia...a alegria de partilhar a Primavera e de molhar os pés na areia e fazer palhaçadas.
Veio o Domingo...a mãe...o pai...as mãos da mãe...o amor da minha mãe...o braço forte do meu pai a segurar-me as quedas (já não tão forte agora)...as flores sem fim, a relva nas costas e o céu azul como única imagem.
Amanhã, independentemente de tudo, o "sol estará em cada sílaba"...E EU VOU AMAR...simplesmente porque mereço! Porque não sei como virá o futuro e o presente é o único tempo que tenho para viver e para amar, sem ter que me sentir culpada por isso!
Ana Marta Fortuna
Fotografia de Petrova
domingo, março 04, 2007

quarta-feira, fevereiro 28, 2007
terça-feira, fevereiro 27, 2007
Pelas marés

Hoje abri novamente a janela onde sempre me debruço
e escrevi: aqui está a imobilidade aquática do meu país,
o oceânico abismo com cheiro a cidades por sonhar.
invade-me a vontade de permanecer aqui, para sempre,
à janela, ou partir com as marés e jamais voltar...
releio o que escrevi há doze anos, neste mesmo lugar:
as canetas secaram, os lápis ficaram esquecidos não sei
onde. as borrachas já não apagam a melancolia das palavras.
a escrita que inventámos evadiu-se do corpo.
o vazio devora-nos. onde estivemos este tempo todo?
voltaremos a encontrar e a tocar nossos corpos?
Texto: Al Berto, O Medo
sábado, fevereiro 24, 2007
desamparada queda
Virá o diaem que também nós
da torre de vidro
para o vazio saltaremos.
Em desamparada queda
estamos já.
Entre o salto
e a derradeira palavra,
lembrar-nos-emos
de uma nuvem ou de um madrigal.
De que nos serve
o brilho ínsito
em rápidos vidros durante a queda?
Turvamos águas.
Nada mais.
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Quando a procissão passa...
É estranho como um domingo de Fevereiro, aparentemente desinteressante, incómodo e chuvoso, me trouxe de volta à infância. Assim, sem contar rever os brilhos do vestido da Primeira Comunhão, os cachos que me pendiam do cabelo, os passos de bailado com que passeava pela procissão, reencontrei. Não a mim. Só aquele desejo de viver, de sorrir, de seguir com a multidão, de ouvir a explosão dos foguetes. De sentir.
A procissão passou, a chuva fica e o incómodo também. O deslumbre seguiu com a fanfarra. Ficam as certezas que me movem. Hoje mais erradas que sempre. Fica a perda de tudo o que poderia ter sido, fica o medo de que nunca venha a ser. Fica a angústia e o amargo na boca pelas verdades que passaram e pelas mentiras que foram permanecendo.
O encanto dos olhos da Jéssica, que me sorriu, fez-me lembrar o brilho dos dias em que os sonhos eram mais que promessas vãs. Hoje muitos dos sonhos partiram, ficaram só certezas abruptas. As mesmas certezas que minam todo o percurso para o que deveria ser. Fica o que é, fica a chuva, o frio. Lá longe, só o foguetório. Há gente que ama, sorri, desespera, sofre. No domingo não fui mais que aquela que ficou para trás, bem longe da fanfarra e dos foguetes. Só.
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
Passam tão rápido as coisas lá fora.Tão depressa que as não posso sentir.
Passam tão rápido as coisas lá fora. Tão rápido.
Chove há mais de um ano no meu colo de marfim.
Há mais de um ano que estou abrigada da chuva menos o meu colo,
que começa a apodrecer
porque chove à mais de um ano no meu colo de marfim.
Aperto contra o meu colo um mar
que não vejo desde que nasci.
Esse mar que tem um ano, que aperto contra o colo de marfim.
A verdade é que tenho pouco mais do que um ano de vida ou de mar.
Desde esse tempo
cravei fundo as unhas
para apertar as coisas contra o meu colo de marfim
que tenho há pouco mais do que um ano.
Choveu a vida inteira
dentro de mim.
Chove todos os dias
dentro de mim
um vida incompleta.
Não sei se é água do mar
ou se a água das lágrimas do colo de marfim.
Dói porque é tão pequenino o colo,
nunca conheceu nada a não ser chuva e a força do mar apertado contra ele.
Tão pequenino e já tão podre.
Tão podre e já tão esquecido.
Se as coisas não corressem tão rápido
talvez ainda hoje fosse ontem
talvez o ontem fosse pouco mais de um ano para trás
e parasse de chover
para que o meu colo de marfim
acabado de nascer
pudesse arranjar um sitio para se abrigar da chuva.
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
Curiosidades
17/3/1487 – O Rei D. João II, perdoou e pôs em liberdade, Fernando da Costa, Prior de Trancoso , por ter tido relações sexuais com 54 concubinas, das quais teve 275 filhos (200 filhas e 75 filhos): de 29 afilhadas teve 97 filhas e 37 filhos; de 9 comadres teve 38 filhas e 18 filhos, de 7 amas teve 29 filhas e 5 filhos, de 2 escravas teve 21 filhas e 7 filhos; de uma tia teve 3 filhos; de 5 irmãs teve 15 filhas e 3 filhos; e da própria mãe teve 2 filhos. A sentença está arquivada na «Torre do Tombo» (ano de 1487, maço n.º 7, armário n.º 5).
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
Flash Mob pelo Sim
O contraste evidente entre manifestações serenas e alegações desesperadas como as de Júlio Castro Caldas no programa Prós e contras.
Dia 11 de Fevereiro vota SIM
Ana Marta Fortuna
sexta-feira, fevereiro 02, 2007
E o diabo fala espanhol...
Lúcifer, Belzebu, Asmodeu, Azazel, Cadreel, Mastema, Mefistófeles, Satã ou Sier são meras designações para aquele ser enigmático....o Diabo.Se, nestes casos, o 666 é o número do Demo então o mistério foi hoje finalmente desvendado...o diabo fala espanhol...chama-se José Ramón Casteló, trabalha no ramo das lentes de contacto e nasceu a 6/6/66....às 6 horas!!!!!!!!!!!!
Para não restarem quaisqueres dúvidas aqui fica outro dado de interesse...é responsável ibérico de uma empresa de lentes de contacto que causou um grave problema ocular a mais de 100 pessoas em todo o mundo, sendo que algumas ficaram mesmo cegas. A empresa chama-se Bausch& Lomb, o que deve dizer muito pouco ao simples mortal...mas parece dizer muito ao DEMO!
Aqui
quarta-feira, janeiro 24, 2007
“É quando um chão de lamase instala e nos comanda
que a injustiça avança
e a raiva se proclama
é quando D.Quixote
o peito acende e brama
irreverente a espada
imorredoura a chama
é quando os homens longe
repousam distraídos
que a cobra traiçoeira
lhes tapará os ouvidos
e a boca e o saber
e a vida tutelar
e o mais que for preciso
para não deixar pensar
mas sopra a barca o vento
doutra razão de ser
e rasga o mar e alcança
e rompe e quer viver
da ilha para que rumo
não há qualquer registo
mas diz que viver lá
é muito mais que isto
que façam mil favores
em crónicas variadas
meus olhos e distâncias
nunca serão compradas
e comam futebol
e mostrai-vos ao mundo
e engulam três novelas
com talnão me deslumbro
ocupados de dia
com a bicha do guichet
entretidos à noite
com a santa mãe TV
matai-vos por um carro
ou para ter lantejoulas
que aqui na minha terra
cavalgo entre papoilas
mas sopra a barca o vento
doutra razão de ser
e rasga o mar e alcança
e rompe e quer viver
da ilha para que rumo
não há qualquer registo
mas diz que viver lá
é muito mais que isto…”
Música e letra de Pedro Barroso
fotografia de Kéa
ana marta fortuna
segunda-feira, janeiro 22, 2007
O mundo queria ser eu…Eu queria que o mundo fosse sempre esta chamada telefónica a sorrir dentro dos meus ouvidos, dos meus olhos da minha alma.
Amanhã vou comer com as mãos abertas e a barriga cheia de fome como quem não sabe o sabor das coisas a arrepiar os cabelos. Vou acordar o dia…estender os meus braços na varanda e aquecer o meu corpo no chão banhado pelo sol.
Amanhã, mesmo sendo Inverno, vai ser um dia de Verão e eu vou estar estendida na praia o dia inteiro a ouvir as ondas rebentar nos meus pés.
Amanhã se me apetecer morrer, desejarei que seja sol todo o dia para que a minha morte seja sempre Verão, mesmo durante o Inverno…
Verão…mesmo no Inverno.
Ana Marta Fortuna
Fotografia de moumine
terça-feira, janeiro 16, 2007
À Maria Ermelinda
Ao Cunha
A manhã começou crua. Com sabor a morte e a perda. A morte poderia passar incólume mas a sensação de vida interrompida acompanhou-me nos vinte minutos que separam Figueira de Mato do Campo 24 de Agosto. Passa-se a ponte mas o frio permanece. Começar o dia com o peso da liberdade que se perdeu não é fácil.
Ela morreu de cancro de mama. Ele está preso. Ela era a mulher forte que morou, durante anos, na casa ao lado. Ele, o mecânico da rua que me enchia os pneus da bicicleta. A morte era um desfecho esperado, as grades da prisão não. O peso no estômago é pela liberdade que se perde. Há dois filhos que deixaram de abraçar a mãe, há uma filha que esquece o calor do abraço forte do pai. Há uma rua que ficou mais triste, há pessoas votadas ao abandono.
Há quem vá chorar durante todo o dia de hoje, há quem deixará de abraçar a filha e levá-la de manhã à escola. Perdeu-se uma mãe, interrompe-se um pai.
Eu, e a irrelevância da minha dor, ficam com aqueles que perdem. Pelos dois filhos que perderam a mãe, por aquele que perdeu a liberdade. É difícil acreditar em postulados como 'nada se perde, tudo se transforma'. A brutalidade da dor não se reconforta com as certezas da ciência.
quinta-feira, janeiro 11, 2007
No telhado...

Fotografia de Zabaa
Quando a única coisa que nos arrebata é o homem que subiu ao telhado para fumar um cigarro fica-se com a sensação que o amor é uma invenção de quem nunca arriscou olhar lá de cima. É o cenário perfeito para observar os passos dos rostos anónimos e, quem sabe, se não será a distância ideal para que não seja mais possível distinguir-te por entre a multidão.
domingo, janeiro 07, 2007
Para o Manuel...
Todos estamos determinados pelo facto de nascermos humanos e, consequentemente, pela tarefa interminável de ter de escolher constantemente. Não devemos confiar em alguém que nos salve, mas conhecer bem o facto de que as escolhas errradas nos tornam incapazes de nos salvarmos. ERICH FROMM, O coração do homem
fotografia de Petrova
Da janela chegava uma chuva miudinha e um cinzento frio que mantinha quente a memória de que era Domingo. Só os domingos trazem notícias assim, só os amigos trazem esperança igual, junto com uma já saudade por uma distância futura, tão próxima.
Do outro lado vinha uma frase: “Tive uma proposta, Ana…Segunda-feira tenho que responder a ela…implica sobreviver em Lisboa”
Subitamente as coisas crescem e o mundo torna-se enorme, engolindo tudo à nossa volta. Tudo parece insignificante perante a imagem da distância física…O Manuel longe é uma novidade…para todos.
Mas Lisboa será só 300 km e o Manuel é tão grande que lhe basta suspirar para que esses quilómetros sejam desfeitos com as duas mãos num colectivo de saudades…”Inclino-me para ir, anita”.
Vamos todos contigo, sempre, pequeninos dentro do bolso do teu casaco, para qualquer lado…vamos sempre!
Quando cresço percebo com facilidade que a amizade é o único amor honesto. Sinto remorsos pelas conversas que não tivemos, pelos jantares que não foram combinados, por uma estranheza nos abraços…queria ter conversado mais, abraçado mais, chorado mais…
A ideia da ausência traz-me memórias do que não se fez. A escolha meu terno amigo é mais do que acertada…a viagem é rápida, o carinho esse demora-se pelo tempo, dança calmo pelos dias…Ficaremos bem se tu também ficares…E agora por ti, vamos dançar, sorrir muito e cantar muito alto, como fazem as crianças, para que os anjos as oiçam…Para ti…para o slint e para a andorinha, pais e irmã asas para protegerem o vosso sono e darem esperança aos vossos sonhos.
Ana Marta Fortuna
terça-feira, dezembro 26, 2006
terça-feira, dezembro 19, 2006
Demências à italiana
Aqui ficam as divagações, em tom romano, do nostro discepolo italiano...sempre Erasmo. E a tradução que se conseguiu arranjar de uma italiana já em avançado estado de demência.
Baci Bello**
Super Heróis (De senectute )
As crianças esforçam-se (ou ficam frustradas) por causa dos constantes limites
Por exemplo eles não alcançam a manivela das portas, só quando são maiores.
Das primeiras frustrações (e das primeiras aspirações) surge o carácter.
Depois surge o primeiro ditado: há aqueles que seguram a cadeira, outros que, simplesmente, se aproximam do próximo triciclo e sobem para o assento de forma pouco convencional; há ainda quem ainda se lance para o infinito. A parte do fascínio é só deles.
Terminam ali, mas felizes.
Como os animais que não têm medo da morte, porque simplesmente ignoram a sua existência.
E os outros?
Os outros têm que esperar pacientemente pela demência.
Os dementes são muito mais fortes e invencíveis que os super heróis.
Vivem no seu planeta e os outros bem se podem foder. As suas decisões são inalteráveis, pelo menos até o deixarem de ser. Depois voltam a deliberar sobre o mesmo assunto, muito provavelmente já com ideias diferentes das anteriores.
Daquele momento partem, calmamente, em defesa das suas convicções, até que um dia voltam a esquecê-las.
Fazem as mesmas coisas vezes sem conta, para não passarem por dementes.
Se alguém se envolve nalguma coisa, o ciclo prossegue a sua marcha; se ele dá sinais de impaciência discutem durante toda a vida; mas, dali a pouco, voltam a esquecer tudo. Volta tudo ao que era antes.
Eles esquecem os princípios fundamentais da convivência física e social.
Esquecem e ignoram o ataque do coração que os arrancou à noite com dores brutas, e então encontra-se uma linha que balança lá fora para limpar as janelas quando alguém chegar.
Então nada os pára, nada os preocupa, nada os faz desistir.
Até ao estreitamento arterial seguinte, pelo menos
E este é um desejo secular, tal como o paraíso na terra antes do fertilizante.
1. Para os leitores com um indicativo diferente de 06 (Roma), a oração é:
"Abençoado sejas filho da putade um caralho”
Supereroi (De senectute)
I bambini s'ingegnano (o si frustrano) per i limiti che hanno.
Ad esempio non arrivano alla maniglia delle porte, mentre i grandi sì.
Dalle prime frustrazioni (e dalle prime aspirazioni, dunque) si va formando il carattere.
Lì c'è una la prima diga della vita: quelli che prendono la sedia o semplicemente s'avvicinano col triciclo, ci montano sopra in maniera "non convenzionale" e aprono; altri fantasticano sulla capacità di librarsi in aria volando per raggiungerla. Ma a parte fantasticare la guardano.
I primi sono le persone che vivranno peggio, i razionali, i logici, gli intelligenti in genere. I secondi saranno i beneficiari del detto romanesco "Beato te..."1.
Questi ultimi avranno l'amico invisibile, magari il dono dell'invisibilità essi stessi, respingeranno le pallottole col petto e così via. Probabilmente saranno anche molto religiosi, di una religione qualunque s'intende, sempre in virtù del credere ai supereroi, ai miti, all'intervento esterno, al delegare. Come che sia, vivranno felici e contenti, almeno fino al giorno in cui l'amico invisibile è a casa febbricitante, Superman ha litigato ed ha spento il cellulare ed un TIR li prende pieni pieni.
E finiscono lì, ma felici.
Come gli animali che non hanno paura della morte, perché semplicemente ne ignorano l'esistenza.
E gli altri?
Agli altri non resta che aspettare pazientemente il sopraggiungere del rincoglionimento.
I rincoglioniti sono molto più forti ed invincibili dei supereroi.
Vivono sul loro pianeta, e gli altri si fottessero. Sono inamovibili nelle loro decisioni, almeno finché non le dimenticano. Poi rideliberano sullo stesso argomento, magari con direzione e segno opposti alla volta precedente.
Da quel momento partono (con calma) come missili nella difesa a spada tratta della novella convinzione, fino alla prossima amnesia e così via.
Rifanno le stesse cose milioni di volte, per evitare di dimenticarsene e dare quindi l'impressione di essere rincoglioniti. Se nel rifare una cosa c'è coinvolto qualcuno, gli scassano il cazzo ogni volta che riparte il ciclo; se costui da segni d'insofferenza litigano per la vita (evvai!); ma poco dopo lo dimenticano e tutto da capo.
Sono molto più forti di Superman perché dimenticano.
Dimenticano i principi fondamentali della convivenza civile e della fisica.
Dimenticano e quindi ignorano di averti fatto prendere un colpo chiamandoti nella notte col dolore al petto e al braccio, e quindi li trovi appesi ad un filo che dondolano fuori dalle finestre per pulire i vetri quando accorri.
Quindi nulla li ferma, nulla li preoccupa, nulla li fa desistere.
Fino al restringimento arterioso successivo almeno.
E siccome l'età media s'allunga, tutti, normodotati e non, logici e passionali avremo prima o poi il diritto di vivere una decina d'anni di completo rincoglionimento da supereroi.
In questo modo la vita ci renderà obbligato quel torpore dell'intelligenza da cui siamo sempre fuggiti e potremo finalmente fingere (nei pochi momenti di lucidità, che comunque saremo convinti essere permanenti) di non capire e ridere o sorridere delle cose che nel resto della vita abbiamo capito e sofferto.
E questo è un augurio, laico, come un paradiso terrestre prima di diventare concime.
"Eh, beato te che nun capisci'n cazzo..."
sexta-feira, dezembro 15, 2006
quinta-feira, dezembro 14, 2006
terça-feira, dezembro 12, 2006
Pois que os campos sejam a paisagem da minha única janelaQue as flores sejam as minhas únicas mãos
Pois que o fim de tarde seja o meu único tempo para viver
e o meu espaço sozinho ocupe mais do que qualquer imagem.
Que o peso da minha alma, não seja mais do que um suspiro.
Pois que não anseio mais...nem amor, nem tempo, nem futuro a não ser
este tempo, este presente, esta janela, estas mãos...numa única verdade
sempre sem fim.
dimensaooculta
fotografia de Mark and Fabia
segunda-feira, dezembro 11, 2006
Mazzy Star - fade into you (rare live acoustic)
"E, daí em diante, Oriana foi abandonando um por um todos os homens, animais e plantas que viviam na floresta. Um dia também abandonou o poeta. Foi porque uma tarde o peixe lhe disse:
- Vista à luz do Sol és linda, mas de noite, vista à luz de uma chama, deves ser ainda mais bonita..."
A fada Oriana
Sophia de Mello Breyner Andresen
dimensaooculta
Definições
sexta-feira, dezembro 01, 2006
quinta-feira, novembro 30, 2006
Estação

"Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te vou perdendo a noção desta subtileza. Aqui chegado até eu venho ver se me apareço e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho
Muita vez
vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça"
Mário Cesariny
Fotografia de Rosalina Afonso
dimensaooculta
Ontem era velha…tão velha que me doía o corpo só de pensar em levantar, as mãos de as querer apertar, os braços de os querer cheios. Hoje sou uma criança…tão pequenina que me dói a alma por tudo o que ainda tenho para viver, por todas as mãos que quererei minhas, por todos os abraços que me recusarão, por toda a verdade que nunca chegará.
Pensei que a verdade resolvia os males da humanidade…Aprendi que a verdade não é única porque cada um tem a sua, conforme as suas conveniências…lamento…hoje porque sou criança e porque ontem fui velhinha, tenho o direito de acreditar, que não há nada em que acreditar…E o que mais julgava acreditar desfez-se em pó. A verdade é que a realidade não existe, a verdade é que os muros não existem, a verdade é que as palavras não se dizem, a verdade é que os olhos não se escondem, a verdade é que as mãos não se dão e os abraços não se querem cheios…
A verdade é que estamos sozinhos…sempre que queremos acreditar que a verdade parte do útero e não da voz. Todas as coisas parecem irreconhecíveis quando queremos acreditar que toda a verdade vale a pena.
Hoje lembrei-me que quando era criança o dia começava cedo, não havia medo de acordar, não havia medo de esfolar os joelhos na eira da minha casa, ou de subir ás videiras e cair a 3 metros do chão. De subir ao telhado enorme da casa da minha avó e só sentir o medo pelo sermão da mãe e do castigo que se adivinhava mal se dava o primeiro passo em direcção a esse telhado. Lembro de me zangar com o Tiago e não ter medo de lhe dizer o porque…de um dia não querer ir lanchar a casa da Isabel porque me lera o diário sem eu saber…O Tiago pediu desculpa e nessa mesma tarde brincávamos juntos outra vez. A Isabel deixou ler-me o diário dela e continuamos a lanchar juntas. Lembro-me de um dia ter arrancado uma unha ao Tiago, numa estúpida brincadeira dos cozinheiros. Ele bateu-me…Nessa tarde foi ao hospital. No dia seguinte, estava em minha casa...Olhamo-nos…eu chorei…ele sorriu.
Não eram precisas palavras…bastava saber que o mundo era o espaço daquele dia, e que as tardes e os amigos eram tudo o que tínhamos. O mundo não acabava de um dia para o outro, mas os dias eram sempre novos, havia sempre a oportunidade para ser melhor, para esquecer e começar pelo sorriso depois da zanga.
As crianças acreditam que o homem faz chuva…as crianças compreendem a dimensão da arte e da verdade, mais do que qualquer um de nós, mais do qualquer pseudo-intelectualismo, fechado em tertúlias para os amigos.
Tenho saudades de sentir o que sentia quando era criança…de sentir que a dor se resolvia com um abraço e as zangas eram princípios de alguma coisa melhor e nunca o fim.
Hoje…na tarde submersa em trânsito chorei pelo tempo que me falta viver, sem sentir a verdade das coisas como o fazia quando era criança.
Chorei porque já ninguém acredita. Porque hoje andava uma mulher quase nua na rua a falar sozinha, porque há alguém que não consegue dormir, porque há alguém que ama e não diz, porque há alguém que sofre por um mal entendido, porque há alguém que foi mal interpretado, porque há alguém que não tem onde dormir, alguém que não tem o que comer, alguém que se sente sozinho, alguém que reprovou num exame, alguém…Em camadas…pesando umas em cima das outras, sinto em camadas...Tanto que não me sinto!
dimensaooculta
terça-feira, novembro 28, 2006
Pastelaria
Afinal o que importa não é bem o negócio nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante- ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
Mário Cesariny
Nobilíssima Visão (1945-1946)
dimensaooculta
quarta-feira, novembro 22, 2006
17h30, chove lá fora, a noite que cai, o frio que se sente. Johnny Cash é a voz da dor. Ouve-se 'Hurt' com a mesma verdade com que se sofre, sente-se cada palavra como que um último sopro de vida. Há dias em que os cenários enegrecidos são a única coisa que nos move. A ele, que a arte degenerativa da vida tomou, resta agora o registo da voz. Aqui acrescentam-se as palavras e a imagem.
'Hurt'
I hurt myself today
to see if I still feel
I focus on the pain
the only thing that's real
the needle tears a hole
the old familiar sting
try to kill it all away
but I remember everything
what have I become?
my sweetest friend
everyone I know
goes away in the end
and you could have it all
my empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
I wear this crown of thorns
upon my liar's chair
full of broken thoughts
I cannot repair
beneath the stains of time
the feelings disappear
you are someone else
I am still right here
what have I become?
my sweetest friend
everyone I know
goes away in the end
and you could have it all
my empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
if I could start again
a million miles away
I would keep myself
I would find a way
Memórias de um país na rua
de interesses, onde os chefes
proclamam: unir, unir!
Mas, nem por isso, ele
deixa de ser partido..."
"Portugal é o país onde
todo o homem é livre
de dizer o que pensa!
Porque ninguém lhe
liga nenhuma..."
"Se Deus existe
porque é que não
foi votar?"
"O meu querido S. João
Este ano em Portugal
Se tu fosses capitão
Eras feito general"
(quadra popular portuense)
"Abaixo os telhados, a
a chuva é do povo!"
"Queremos sair
da casca!
(os pintainhos em auto-gestão)"
in O Livrinho Vermelho do Galo de Barcelos, Ex-citações de Mau de Zé y Chunga
E a rua continua a ser a última expressão de liberdade do homem preso pelas circunstâncias do poder.
terça-feira, novembro 14, 2006
Teatradas...a continuação!
A Teatrada continua, apesar de todas as adversidades!!
Apareçam...
domingo, novembro 12, 2006
Problema de Expressão (Clã)
Sexta feira "alguém" me perguntou como fazer...pensei o fim-de-semana inteiro. Sem querer correr o risco de aborrecer "alguém" com mais uma chamada telefónica, deixo aqui uma sugestão a esse "alguém"...
E se pensares em linguagem gestual???
Há coisas que devem ser ditas, independentemente de todos os problemas de expressão.
dimensaooculta
terça-feira, novembro 07, 2006
Al(nin)guém

Who'll take care of me
When I die, will I go
Hope there's someone
Who'll set my heart free
Nice to hold when I'm tired
(Antony and the Johsons - Hope There's Someone)
É um desejo até demasiado comum...esperar que haja alguém. Que abrace, que dê a mão, que esboce uma piada em dias de chuva, que segure o pé para saltarmos a cerca. Que te olhe assim.
É também o sorriso que falta.
quarta-feira, novembro 01, 2006
Frio
dimensaooculta
domingo, outubro 29, 2006
Yeah Yeah Yeahs - Maps (acoustic)
Em Outubro vestimos algumas noites de Primavera junto ao rio, como que advinhando um longo Inverno.
dimensaooculta
quinta-feira, outubro 26, 2006
Teatradas
domingo, outubro 22, 2006
quinta-feira, outubro 19, 2006
Rajadas

Os pés frios, Damien Rice e a chuva lá fora. As rajadas de vento apuram os sentidos, têm esta leve magia de nos fazer sentir vivos. A volúpia do vento abraça-nos, envolve-nos, a mecânica das coisas leva-nos de encontro ao metro. A chuva fica lá fora mas os cabelos continuam húmidos, os pés frios, as mãos pálidas e o sentir cada vez mais gélido.
A chuva é uma boa desculpa para a depressão, a vida é a condição ideal para a morte.
quinta-feira, outubro 12, 2006
A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.
A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.
A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.
A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.
José Carlos Ary dos Santos
dimensaooculta
Quando se inventa o amor quase sempre se esquece que aqui, ainda é o único sítio onde podemos esquecer, porque é o único lugar onde o amor não precisa de ser inventado.
quarta-feira, outubro 04, 2006
Na feira
domingo, outubro 01, 2006
“Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouvirei o som da água no rio onde tantas vezes mergulhei a cara, para sempre serei a brisa que entra e passeia pela casa. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio, através da espuma quebrada na areia das praias…Apenas nos iludimos!”
Miguel Sousa Tavares
Fotografia de Geoffroy Demarquet
dimensaooculta
sábado, setembro 23, 2006

Elas vêm a procura de luz…
entram pelos olhos dentro com cheiro de canela nas asas.
Rios de luz, com a chuva de uma tempestade eterna que se prolonga na alma até ao Mar.
Tecidos vermelhos de água caem sobre os telhados secos das casas e só uma imagem me surge.
A do lugar que só a mim pertence e não é de mais ninguém.
Vês?!
É aquele cantinho no fundo do Mar denunciando a tempestade.
É meu!
Hoje e para sempre
Fotografia de Pedro E.
dimensaooculta
domingo, setembro 17, 2006
Já era tempo!
sexta-feira, setembro 15, 2006
Partida

"A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando as árvores parecem inspiradas Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida."
Sophia de Mello Breyner Andresen
dimensaooculta
segunda-feira, setembro 11, 2006
Pelas memórias
Watch as she lies silent, for soon night will be gone
I will stand arms outstretched, pretend Im free to roam
I will make my way, through, one more day in hell...
How much difference does it make
How much difference does it make,
I will hold the candle till it burns up my arm
Ill keep takin punches until their will grows tired
I will stare the sun down until my eyes go blind hey,
I wont change direction, and I wont change my mind
How much difference does it make
How much difference does it make...how much difference...
Ill swallow poison, until I grow immune
I will scream my lungs out till it fills this room
How much difference
How much difference does it make
Indifferance Pearl jam
Que diferença faz agora?
dimensaooculta
sexta-feira, setembro 08, 2006
O Homem para lá do infinito

*The man who measures the clouds de Jan Fabre, Bélgica
Enquanto um homem mede as nuvens, aqui fica um percurso pelo mundo através dos reflexos condicionados da Arte.
Boa viagem!
sexta-feira, setembro 01, 2006
Ponto Final

O Independente publica hoje a última edição. A capa a negro designa o ponto final, a conclusão de um percurso com 18 anos e que marcou o jornalismo português. Para lá das clivagens políticas, o projecto d' O Independente atacou a verticalidade do atavismo nacional, a lógica de pensamento único que militava na imprensa portuguesa e foi o responsável por um interessante proceso de modernização ao nível dos conteúdos e do design. As inovações estéticas e os ventos do novo-jornalismo nos EUA chegavam, com anos de atraso, a Portugal, imerso na cadência do imperialismo cultural francês. Fica o arrojo de Miguel Esteves Cardoso no Suplemento 3, em jeito de lufada de ar fresco.
Hoje falo d' O Independente como registo histórico. As poucas vezes que me passou pelas mãos coincidiram com os anos das sextas-feiras de terror nos gabinetes ministeriais. Teria pouco mais de dez anos e só o colorido, a banda desenhada e os recortes da semana da revista me chamavam a atenção. Há anos que não leio O Independente, nunca o comprei, nunca me atraiu a atenção.
A lógica simplista do título bomba reduz a realidade a jogos de palavras que só contribuem para efeitos de vendas. O jornal cai moribundo, tal como continua morIbunda a direita portuguesa. Não que a perdição da direita ou a queda do grande projecto político de Paulo Portas me entristeçam. Muito pelo contrário. A morte d'O Independente não deixa saudade. Foram muitos os momentos de mesquinhez política e pretensiosismos intelectuais que marcaram os 18 anos de existência que hoje terminam. Fica o lamento pela morte de mais um jornal, quando passa mais de um ano sob a morte d' O Comércio do Porto, esse bem mais digno de uma dor mais sentida. Fica a recordação pelas inovações trazidas e pela liberdade criativa de Miguel Esteves Cardoso.
O projecto político de direita que fundamentava o semanário circulava em torno de um rol de ataques pessoas e de um populismo e palavreado fáceis, lugares comuns em qualquer direita. A amálgama de maus exemplos que perpassou pelos 18 anos do jornal não impediu que subsistissem alguns contributos positivos, mas hoje foi-se, acabou.
Numa altura em que o debate em volta da direita em Portugal parece voltar à ordem do dia, o que já foi o grande objecto de propaganda da direita morre (permanecem outros, mais bem disfarçados). Urge perguntar se o propalado debate sobre a refundação da direita portuguesa não poderá culminar em mais um meio de propaganda rumo ao poder. Ou será qu ele já existe? Porque d' O Independente já sabiamos com o que contar...
terça-feira, agosto 29, 2006
negro
searas de trigo
infinito de águas brancas
uma turbulência escondida
na calma aparente.
Eram anjos, pessoas, animais e vento! Muito vento!
Tanto e tão calmo.
Como se o tempo fosse o vento,
como se as palavras fossem água que se estendiam eternamente pelas searas de trigo.
Era gente, eram vozes baixas, passos vazios, ecos em surdina.
Era o tempo que era o vento que era a água. Era a água que era o meu ventre
e dele saiam todas as coisas do mundo numa estranha harmonia,
tão diferente do dia-a-dia.
Era a paz de um acordar de que nunca se acorda, o olhar de quem nunca deixou de ver.
Era o vento que era água. Era água que me corria nas veias e a minha paz eram rios feitos de mar, feitos de gente, feitos de pensamentos e todos os pensamentos eram o vento, que era o tempo que era a minha paz.
Era o meu sonho que sonhava…talvez a minha vida!
Era o tempo que era o vento!
dimensaooculta
quinta-feira, agosto 17, 2006
Guilhotinas
Alfredo Stroessner, o antigo presidente paraguaio que esteve no poder de 1954 a 1989. Morreu aos 93 anos vítima de uma pneumonia no exílio em Brasília. Mais um refúgio dourado para um ditador sul-americano que esteve envolvido na Operação Condor e foi responsável pela repressão de muitas vozes.
Em jeito de desforra, ontem a minha voz soltou-se para dizer que os sentimentos amputam qualquer tipo de verbalização. É difícil falar de tudo aquilo que se cola nas nossas entranhas, que nos impele, mas que também nos castra.
Apesar das palavras contidas e dos gestos exacerbados tu és uma pessoa muito especial para mim. E, para todos o que o sabem (mesmo sem a questão da verbalização), amo-vos muito!
P.S. Fica desde já prometido que não volto a escrever mais posts pseudo-bio-lamechas-tipo-diário-de-pita-doente-da-cabeça-e-com-problemas-inter-relacionais. Pior, e isto não é uma simples ameaça, se alguma das MDM ousar escrever textos da treta como os últimos que cá estão corto-lhes a garganta...e ficam sem o rato. Agora só coisas dignas do Abrupto, Ponto Media, Industrias Culturais e tal....
E agora, depois destes pseudo-moralismos, para acabar em beleza....
Até sempre!!!!!!
terça-feira, agosto 15, 2006

Estranho...porque se o mundo acabasse amanhã, nada disto fazia sentido porque voltariamos todos ao mesmo início! Acreditando que não se perde nada.
I
não voltaremos a pressentir o mar,
nem sequer lembraremos o turvo sal das bocas
sobre o rosto gémeo da máscara que nos esconde
louco pássaro cinza sulcando o ar rarefeito
e a escuma luminosa dos meteoros que cegam
os frementes alicerces da cidade insone
não nos reflectimos mais nos gestos desgastos
nem na demência da língua donde irrompr a alba
e nómadas continuaremos para lá do sangue
flutuantes no escuro sonho
os corpos incendiados um no outro
consomem-se formando insuspeitas constelações
vagarosamente
através dos séculos regressaremos
intactos ao nada inicial
Al Berto
O medo
dimensaooculta
Perdas & danos
Acordar tarde
tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia
segunda-feira, agosto 14, 2006
Voo de pétalas
As histórias não terminam sempre com um voo de pétalas por entre a perplexidade dos raios monásticos. Esta terminou, mas não é regra. É um ponto final, como todos, mas deixa, pelo menos, que a beleza se insinue para lá dos destroços.
Ao que tudo indica a farinha deixada à laia de desejo de abundância também não foi bem recebida. Incompreensões latentes que se unem à resistência de quem vive para sentir todos os dias. Não em dias de festa, não três vezes por semana ou bimestralmente. Sempre, intensamente, contraditoriamente. Hoje sinto menos do que em outros dias. É uma qualquer ditadura das dependências que castra o desejo de continuar. Mas, o homem tem destes subterfúgios que é continuar a arrastar-se mesmo quando já não consegue andar mais. É uma imagem terrível, de incapacidade, de abandono. Mas é também, e sobretudo, uma imagem de resistência. Sobrevive-se para lá da perda, da repressão ou das feridas. Sobrevive-se na esperança de voltar a viver.

















